
Créditos da imagem: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians
“SUPER VACAS”
Negociar contrato com Vicente Matheus costumava ser um desafio para qualquer jogador no Corinthians.
Rivellino, por exemplo, considerado o maior jogador da história corintiana sofreu para renovar contrato em 1973.
E olha que o Riva tinha sido campeão do mundo com a Seleção Brasileira na Copa de 70, no México, sendo jogador do Corinthians.
Sócrates, Palhinha, ninguém tinha moleza com Matheus.
O presidente corintiano era conhecido por ser um negociador habilidoso que não fazia dívidas sem poder pagar.
Sempre apostou na política de contenção de despesas.
No quinto ano de mandato, conseguiu livrar o Corinthians das dívidas, especialmente as que o clube tinha com a Previdência Social.
Na véspera do clássico contra o Palmeiras, pelo segundo turno do Paulistão 77, dois titulares estavam com contratos vencidos: os atacantes Vaguinho e Geraldo.
Como era de praxe, Vicente delegava ao irmão Isidoro – vice-presidente de futebol – as conversas iniciais para renovação dos compromissos.
Invariavelmente, os jogadores saiam aborrecidos.
Vaguinho considerou “ridículo” o aumento de 20% proposto.
O jogador ganhava 28 mil cruzeiros por mês.
O teto salarial – estabelecido em acordo de todos os clubes grandes de São Paulo, segundo Matheus – era de Cr$ 30 mil (trinta mil cruzeiros).
A Geraldão foi oferecido aumento pouco maior de 30%. Mas ele era o jogador que recebia menos: 15 mil cruzeiros.
“Tenho que fazer um contrato melhor. Sou o que ganha menos e quero entrar na média de todos os jogadores”.
A média de salários dos jogadores do Corinthians, na época, era de Cr$ 25 mil (vinte e cinco mil cruzeiros)
Vaguinho tinha avisado que não jogaria o clássico contra o Palmeiras sem contrato.
Geraldo pretendia conversar com o técnico Oswaldo Brandão para decidir.
Ambos queriam negociar diretamente com Vicente Matheus para resolver a questão. Mas o dirigente nem aparecia no Parque São Jorge.
Enquanto isso, Isidoro Matheus garantia que o Corinthians não podia pagar mais do que estava oferecendo aos dois jogadores.
Isidoro usou como exemplos os salários que o Flamengo pagava para Zico – Cr$ 160 mil (cento e sessenta mil cruzeiros) – e que Roberto Dinamite ganhava no Vasco: Cr$ 70 mil (setenta mil cruzeiros).
O vice presidente corintiano falava que os clubes cariocas estavam falidos e não cumpriam os compromissos financeiros. E no Corinthians isso não iria acontecer.
Geraldo tinha pedido salário de 25 mil cruzeiros e garantia que não aceitaria um centavo a menos.
Da mesma forma, Vaguinho queria mais que os Cr$ 28.000,00 (vinte e oito mil cruzeiros) oferecidos pelo Corinthians.
Ambos acabaram ficando fora do Derby.
A situação só foi resolvida após o clássico.
A pressão da torcida, insatisfeita com o rendimento do time sem os dois atacantes, ajudou muito.
Vaguinho renovou primeiro. Não recebeu o aumento que queria, mas tirou um pouco mais de dinheiro de Matheus.
Geraldão sofreu quase até o final do mês de julho.
Acabou renovando por 24 mil cruzeiros por mês, mil a menos que o desejado.
Em valores da época, o centroavante passou a receber quase mil, seiscentos e quarenta dólares americanos por mês.
Vaguinho, pouco mais de dois mil dólares americanos.
Hoje em dia, o jovem atacante Pedrinho, de 18 anos, recém promovido ao time profissional, renovou contrato.
Recebeu aumento de 200% em relação ao que ganhava como juvenil.
Vai receber mensalmente, algo próximo a 8 mil dólares americanos.
A multa contratual para quem quiser tirar o jogador do Corinthians passou para 100 milhões de reais, cerca de US$ 25 mi (vinte e cinco milhões de dólares).
Há quarenta anos, as estrelas do futebol eram comparadas a vacas gordas por conta do que se considerava salários polpudos.
Hoje, até jovens ainda desconhecidos podem faturar alto.
Não sendo exagero considerá-los “super vacas”.
E na espetacular inflação nos valores do futebol, o principal desafio dos clubes tem sido manter a saúde financeira.
Missão em que praticamente todos estão fracassando.