Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

Sem centroavante, futuro do Corinthians é duvidoso

17/03/2018

Créditos da imagem: Daniel Augusto Júnior/Ag. Corinthians

Em 1982, o humorista Jô Soares criou o famoso personagem “Zé da Galera” que usava um único e conhecido bordão: “bota ponta na Seleção, Telê!”. Era uma brincadeira em cima das cobranças de parte da torcida para que o time que foi à Copa daquele ano tivesse um ponta pela direita.

Telê foi ousado naquele ano. Montou um time com um quadrado no meio de campo formado por Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico. Mais à frente, o centroavante Serginho e o ponta-esquerda Eder, que recuava para compor o meio. Ou seja, abriu mão de um volante marcador tradicional e de um ponta avançado pela direita. Compensava isso com uma movimentação constante dos craques do meio e com as subidas dos competentíssimos laterais Leandro e Júnior. Não foi campeão, mas criou um time inesquecível para quem viveu aquela época.

O futebol tem mudado cada vez mais nos últimos anos. Técnicos criativos e ousados formam esquemas que dificultam aos torcedores com pouco conhecimento tático definir qual a formação do time. Nos últimos trinta a quarenta anos, foram feitas variações no até então tradicional 4-2-4. A necessidade de proteger as defesas implicou nas variações do 4-3-3, 3-5-2, 4-4-2, 4-5-1 etc. Parreira, em 1994, chegou a falar do 4-6-0. Para arrepio dos tradicionalistas e defensores do futebol ofensivo.

Na verdade, os grandes times formados no futebol mundial desde a Holanda de 1974 até o Barcelona dos tempos modernos mostram que os jogadores versáteis, capazes de cumprir mais de uma função, com disciplina tática e muito fôlego podem fazer esquemas vencedores sem estarem muito presos às definições táticas pré-concebidas e mais conservadoras.

Isto posto, ainda resta uma questão muito atual no futebol brasileiro. É possível jogar sem o centroavante? Para ser mais específico: depois da saída de Jô, conseguirá o Corinthians sobreviver sem um camisa 9 tradicional? O técnico Fábio Carille já deixou claro que gostaria muito de ter um homem de área fixo, mas tem se virado como pode com a falta de opções.

Para não nos estendermos demais neste texto, vou pegar dois exemplos conhecidos de times que se deram bem sem centroavante. Claro, a Seleção Brasileira da Copa de 70 é o caso mais especial. O técnico Zagallo escalou um time numa espécie de esquema 4-5-1. A defesa era formada por Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo. O meio de campo tinha Clodoaldo, Gerson, Pelé, Tostão e Rivellino. O ponta Jairzinho ficava à frente para puxar os contra-ataques. Gerson e Clodoaldo ficavam mais recuados. E o ataque tinha sempre a linha Jair, Pelé, Tostão e Rivellino. Sucesso total! Time forte na defesa e implacável no ataque. Vale lembrar, porém, que nunca mais se reuniu tantos craques em um só time desde então.

Outro exemplo foi o próprio Corinthians campeão da Libertadores de 2012. Com Liedson sem condições físicas e o reserva Elton muito abaixo em qualidade técnica, Tite optou na maior parte dos jogos, principalmente os decisivos, por jogar com um esquema sem centroavante. Entravam em campo Cássio; Alessandro, Chicão, Castán e Fábio Santos; Ralf; Paulinho, Alex, Jorge Henrique, Emerson e Danilo. No esquema vencedor, Emerson e Danilo se revezavam como a referência dentro da área.

Naquele ano, o Corinthians fez 22 gols na Libertadores, marcados por Alex (1), Danilo (4), Douglas (1), Jorge Henrique (3), Romarinho (1), Emerson (5), Fabio Santos (1), Elton (1), Liedson (1), Paulinho (3) e Ralf (1). Ou seja, dois de defensores, dois de centroavantes e 18 dos chamados meias/atacantes. Mesmo campeã, foi uma solução improvisada por falta de opções, tanto que Tite tratou de fixar o centroavante Guerrero assim que pôde.

Carille tem também tentado criar soluções emergenciais para a falta do camisa 9. Deu muito certo no 2 a 0 contra o Palmeiras, quando entrou com um 4-2-4, fazendo Rodriguinho e Jadson se revezarem na frente. Mas não tem dado tão certo em outras partidas.

Lembrem-se que a Copa de 70 teve seis jogos contra seleções que não tinham condições de tecnologia e intercâmbio de craques para conhecer em detalhes seus adversários. Assim como a Libertadores de 2012 teve 14 jogos, sendo que Liedson e Elton participaram, mesmo que por alguns minutos às vezes, em boa parte das partidas.

Carille tem pela frente um Brasileiro de 38 rodadas, muito ainda a percorrer na Libertadores e as partidas decisivas do Paulistão. Terá que ser muito criativo para que suas estratégias não sejam facilmente manjadas. Creio que essa tarefa é dificílima, ainda mais levando-se em conta que no meio do ano teremos nova janela de transferência e o time poderá perder mais algumas peças.

Jô facilitou muito a vida do técnico em 2017 porque estava em grande fase. Segurava a zaga no campo do adversário, era opção de jogada aérea, fez muitos gols e ainda servia como paredão abrindo espaço e dando passes aos companheiros de ataque.

A falta de um jogador como ele é muito mais complicada do que se pensa. E, mesmo que “baixe” um Guardiola em Carille, é um imenso desafio obter sucesso se não trouxer um centroavante de ofício e talentoso. E aí vem o segundo problema? Quem seria esse cara?