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No Ângulo | Futebol é preciso

Pelé foi o único para quem fiz concessões

25/10/2016

Créditos da imagem: Rosan/Arquivo Pessoal

Quando tocou o celular, achei que era trote. A secretária dizia que Pelé estaria na fisioterapia por volta das 14 horas.

Era 1999, quando ele tinha 59 anos. Havia feito uma artroscopia nos EUA com o Dr. James Andrews, na articulação do joelho.

Quando ele entrou na minha sala, confesso que deu vontade de pedir um autógrafo!

Disse que não poderia vir todos os dias, eu disse: ok!

Também não poderia vir nos horários estipulados, eu disse: ok!

Como não conceder certos privilégios ao “Rei do Futebol”?!

Pelé é unanimidade quando analisamos o que fez dentro das quatro linhas. Foi e sempre será o maior jogador de futebol de todos os tempos.

Alguém que se chama Edson, porque seu pai quis fazer uma homenagem ao inventor da lâmpada elétrica, Thomas Edison, só podia ter o talento dos gênios.

Alguém que faz mais de 1280 gols ao longo da carreira, continua como o maior artilheiro da Seleção Brasileira com 95 gols, campeão mundial com apenas 17 anos, tricampeão no México aos 30, bicampeão mundial de clubes com o Santos, cantou com Elis Regina, interrompeu uma guerra civil na África, foi Ministro dos Esportes etc. Não havia como contrariar sua agenda.

Não me deixou medir sua altura, o que me intrigou, mas relevei.

Fiquei impressionado com sua musculatura aos 59 anos. Disse-me que ganhara apenas 4 quilos desde sua última partida como profissional pelo Cosmos. Apesar da cirurgia, havia um atrofia mínima na coxa, quase imperceptível.

No mais, foi exemplar. Executou o protocolo à risca. Sempre gentil com os atletas que davam o famoso “migué” para passarem na fisio somente para vê-lo.

Certo dia, ele deitado na maca, com a perna envolta em fios e aparelhos, jogaram uma bola em sua direção repentinamente, ele mesmo deitado, matou-a no peito, fez inúmeras “embaixadinhas” com a cabeça e devolveu a bola, provocando espanto entre os presentes. Seu Zito comentou comigo: – Quem sabe não esquece, se sou o treinador, coloco para jogar amanhã, soltando gargalhada. Retruquei que ele ainda não estava apto, no que de imediato o seu Zito mandou: – Coloco ele no gol, só vai usar as mãos!

Enfim depois de muitas histórias lembradas e contadas, chegou o dia final da reabilitação. Eu disse a ele que para ter alta definitiva, teria que se submeter a uma avaliação isocinética. Mostrei o equipamento, expliquei como seria, e caí na besteira de falar que seria uma honra ter seus dados em meu acervo de atletas.

Ele disse: “Não! Volto daqui 15 ou 20 dias, vou me preparar primeiro”.

Tentei insistir, mas foi em vão! Pensei com os meus botões, perdi a chance de ter os números do Rei em meu banco de dados.

Duas semanas depois, Pelé apareceu, realizou a avaliação e me fez um pedido: que o resultado não fosse divulgado enquanto ele vivesse.

Era 21/10/1999, data do seu nascimento, embora ele goste de comemorar no dia 23, que foi o dia do seu batizado.

Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, é desses seres que possuem uma áurea, você sente isso de imediato.

Parabéns , ontem, hoje, amanhã e sempre ao “Jogador de Futebol do Século”.