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O promissor Carille é o maior responsável pela destruição daquilo que ele mesmo construiu

Créditos da imagem: Daniel Augusto Jr./Ag Corinthians

Assumindo um elenco desacreditado, Fabio Carille logo se consolidou como a maior revelação entre os técnicos brasileiros nos últimos tempos. Dando espaço a jogadores jovens ou que não despertavam nenhuma expectativa, formou um time sólido, seguríssimo na defesa, disciplinado, moderno e agudo, mortal dentro e fora de casa, que assim conquistou o Campeonato Paulista e fez o melhor turno da história do Campeonato Brasileiro, com direito a invencibilidade e 82,45% de aproveitamento.

A partir do momento em que se tornou unanimidade, surgiram demandas que demonstraram que Carille ainda está em formação e precisa passar por muita coisa para se tornar um treinador de primeiríssimo nível. Embora já tenha confirmado ser um excelente montador de equipe, o trabalho de “DT” (“Diretor Técnico”, como dizem os hermanos) é muito mais complexo, e envolve gestão de grupo, identificação de momentos-chave, planejamento estratégico, psicologia, comunicação de massa e muitos outros fatores além do trabalho tático.

Quero deixar claro que tenho a melhor impressão do ser humano Fabio Carille e que se hoje ele está sendo severamente criticado neste artigo, é também em função da maior responsabilidade que a excelência de seu trabalho gerou. Caso tivesse feito um trabalho inferior nos primeiros oito meses do ano, certamente não viraria refém do sucesso instantâneo que teve. Mas, apesar disso, não posso deixar de listar uma série de graves equívocos cometidos pelo treinador corintiano desde que começou a derrocada alvinegra, a partir de 19 de agosto, na derrota para o Vitória -a primeira pelo Brasileirão e que encerrou a segunda maior série invicta da história do clube, 34 partidas- que deu lugar a um aproveitamento de apenas 33,3% nas últimas 14 partidas (3 vitórias, 5 empates e 6 derrotas):

1) Contemporizar sempre: depois de derrota para o lanterna Atlético Goianiense em plena Arena Corinthians -a segunda derrota seguida para times do Z4 jogando em casa- Carille classificou o resultado como “comum”, e disse que “isso é o Campeonato Brasileiro”. A postura continua sendo a mesma até agora, mesmo tendo feito apenas um ponto dos últimos 12 disputados, dizendo-se “feliz pelo rendimento” na derrota contra a Ponte Preta. Não é difícil entender que uma coisa é “bancar” sempre um elenco sem moral e creditado como “quarta força” no começo do trabalho, e outra completamente diferente é continuar fazendo isso na liderança do campeonato, depois de reconhecimento da imprensa e da torcida, confiança nas nuvens e boatos (não sei se verdadeiros) de que jogadores têm exagerado nas festas;

2) Profecia auto-realizável: “Não vamos atingir o que fizemos no primeiro turno, sou muito ciente disso, sei que o campeonato é difícil” foi uma espécie de mantra dito por Carille e repetido pelos atletas. Isso cria uma ideia de que maus resultados são sempre naturais, diminui a crença e a cobrança por excelência e planta a semente para a situação vivida hoje, afinal, se a queda é irreversível e natural, como mensurar quando ela passa do ponto?

3) Arrogância por não deixar “o campo falar”: invariavelmente a equipe melhora quando Marquinhos Gabriel substitui Jadson, pela direita, e Clayson substitui Romero, pela esquerda. Mesmo assim, o pessoalmente humilde Carille se recusa a aceitar o que diz o campo, e nunca os coloca para iniciar os jogos. Chegou ao ponto de escalar Marquinhos Gabriel como titular contra o Botafogo, mas no lugar de Romero, e não de Jadson. O resultado é óbvio: Clayson -o merecedor da posição- não atuou, e Marquinhos Gabriel não rendeu jogando fora de posição. Maycon (mas quem sempre é substituído durante as partidas é o regular Gabriel) é outro que poderia ser substituído por Camacho. Em todas as partidas o alvinegro perde claramente o meio-campo para o adversário, e o treinador só faz substituições depois de já estar perdendo o jogo;

4) Não aproveitar o timing para fazer substituições: Clayson voltou de contusão e por três partidas seguidas foi o herói alvinegro (autor de quatro gols que impediram derrotas contra São Paulo e Cruzeiro, e que garantiram a vitória contra o Coritiba). É, ao lado de Jô, o único corintiano a marcar no returno. Na partida seguinte, contra o Bahia, manteve Romero (que não fazia um gol há mais de quatro meses) como titular. O que fez com Clayson, que vinha no momento perfeito para ser o “fator novo” do líder? Deixou no banco e só colocou nos vinte minutos finais…

5) Matar a meritocracia: um dos mantras de Tite em suas bem-sucedidas passagens pelo clube era a meritocracia. Fazer com que os titulares se mantivessem alertas pois poderiam perder a posição para seus colegas, e manter os reservas motivados e sabedores de que só dependiam de si para assumir uma posição no time. Pois Carille faz exatamente o contrário: passou dos limites e dá toda a pinta de que “morrerá abraçado” com atletas que por, uma razão ou outra, simplesmente não conseguem mais jogar bem;

6) Não apagar o incêndio enquanto era possível: em determinado momento, alguns titulares apresentavam queda de desempenho, e o problema poderia ser corrigido com substituições pontuais que envolvessem até três atletas. Com a insistência em manter a “base titular”, Carille colecionou resultados negativos, o rendimento e a confiança caíram e hoje são quase todos os titulares que estão devendo, de modo que substituições pontuais talvez não sejam mais suficientes;

7) Não saber motivar a imprensa e a torcida: hoje o Corinthians é azarão no Brasileirão. O dérbi do próximo domingo será praticamente um tudo ou nada para o ainda líder. O que faria Felipão em uma situação como esta? Certamente estaria incendiando a torcida para a disputa em seus domínios, criando factoides para a imprensa explorar e fazer seu time entrar com a faca nos dentes contra o arquirrival. Enquanto isso, o novato e promissor treinador corintiano só procura mostrar calma e nenhuma mudança de rota rumo ao anunciado desastre.

São muitos os fatores que podem fazer com que treinadores tenham sucesso em suas carreiras. Até o momento, Carille mostrou grande competência em alguns deles, e gravíssimas falhas nos outros. Só o tempo dirá o quanto está aberto para aprender e evoluir nos demais, mas os sinais dados até o momento não me parecem animadores.

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