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No Ângulo | Futebol é preciso

O dilema de Carille: ser um dos grandes ou ser um dos ricos?

18/05/2018

Créditos da imagem: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

Claro que o título deste artigo é uma provocação. Afinal, em futebol, é muito comum que os que chegam ao panteão dos grandes sejam também muito bem-sucedidos financeiramente. Mas o que fazer quando se está em um ponto alto na carreira, dirigindo e ganhando títulos em um dos times mais populares e falados do país, e surge uma proposta milionária de um futebol pouco comentado e raramente visto pelo resto do mundo?

Este é o drama do técnico Fabio Carille. Continuar a carreira meteórica de sucesso no Corinthians, onde ocupa o centro das atenções do noticiário, ou ir para o apagado futebol árabe para receber o caminhão de dinheiro, ou os “dois caminhões”, como Carille diz, do Al-Hilal.

É preciso deixar claro que o próprio técnico esclarece que ainda não recebeu uma proposta oficial. Além disso, a imprensa esportiva internacional diz que o clube árabe investe em mais de um candidato a técnico. Um dos outros procurados teria sido Jorge Jesus, atual treinador do Sporting de Lisboa.

Se a proposta se concretizar, Carille terá que decidir se espera pela consolidação de um futuro de sucesso no futebol brasileiro ou em um grande centro da Europa, ou agarra esta oportunidade de somar milhões à sua conta bancária. Dizem que ele já teria se decidido pela segunda alternativa.

Não seria o primeiro técnico de ponta do país a ir para a Arábia. Zagallo, Telê Santana, Pepe, Tite e Parreira estão entre os muitos brasileiros que foram ganhar os antigamente chamados petrodólares. Voltaram anos depois e seguiram carreiras de sucesso. Mas quando foram, já tinham trabalhos consolidados por anos no Brasil.

A carreira de Carille é exitosa, mas tem apenas um ano e meio. São três títulos (Brasileiro e dois Paulistas) ganhados neste curto espaço de tempo. Mas um longo caminho a percorrer no projeto vencedor que comanda. Hoje, está classificado nas próximas fases da Libertadores e da Copa do Brasil e é um dos líderes do Brasileiro.

Podemos dizer que o Corinthians, neste momento, deve mais a Carille do que o treinador ao clube. O jovem ex-assistente de Tite recebeu uma chance de ouro em 2017, ao ser fixado como treinador do time. Mas fez nesses 18 meses muito mais do que se esperava dele à frente de um time que padece de problemas financeiros e lhe impõe sucessivamente as necessidades de quebrar a cabeça para suprir a saída de jogadores, como Jô, Pablo, Arana, Maycon (que deve ir embora no meio do ano). Centroavante de ponta, nem pensar.

E Carille vai vencendo os obstáculos. Com soluções criativas e muito competentes, tem driblado a falta de talentos, criando esquemas diferentes de acordo com as circunstâncias. Além dos três títulos, impôs seis vitórias em sete partidas nos confrontos contra o arquirrival Palmeiras. Só isso já basta para ficar na memória dos corintianos.

Se a proposta fosse do futebol europeu, não haveria dúvidas. É lá que se encontra o principal centro do futebol mundial. Mas Arábia? Um país de hábitos totalmente diferentes do nosso, de outra cultura, religião etc. Será que impor tal sacrifício à família compensa?

Mesmo que as penúrias financeiras do Corinthians impossibilitem a formação de bons times no futuro próximo, ele já é um treinador com mercado garantido no futebol brasileiro. Basta lembrar as recentes propostas de Atlético-MG e Flamengo, duas que foram conhecidas entre outras que ele diz receber. Os mais animados já falam em seu nome até para a Seleção Brasileira, em uma eventual saída de Tite após a Copa.

É difícil se colocar no lugar de outra pessoa ou fazer contas com o dinheiro alheio. Mesmo assim, se Carille me tivesse como amigo próximo e pedisse um conselho, eu já teria a resposta. “Fique no Brasil! Você dirige com sucesso um dos maiores times do país. Tem um respeito por parte de todos os corintianos que já rivaliza até com o que Tite conseguiu. Seu mercado no país é grande. Você poderá demorar para ganhar o que os árabes te oferecem hoje, mas poderá desenvolver um projeto, se consagrar.”

O futuro de Carille cabe a ele decidir. E certamente essa decisão deve estar mobilizando corações corintianos tanto como uma final contra o Palmeiras.