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Nas entrelinhas do horizonte – o ano de Luan
Muitos comentaristas e técnicos falam do “falso 9” como se fosse um jogador escalado como centroavante, mas que volta pra distribuir o jogo. Não foi essa a ideia que Pep Guardiola teve para Messi. O plano foi mesmo colocá-lo entre a linha defensiva e o meio-campo adversário, mas para que agredisse a zaga com dribles até o arremate. A partir do trio MSN, Messi deixou de ser este falso 9. Porém, continua jogando entre as duas linhas. A diferença é que, com um centroavante de verdade na frente, ele alterna suas arrancadas com passes frequentes. Pela quilometragem reduzida em campo, parece fácil. Não é. Exige um timing natural que pouquíssimos possuem, ainda mais considerando que o espaço entre as linhas na Europa não é propriamente um latifúndio.
Por que estou abrindo uma coluna sobre Luan com esta lembrança? Porque foi exatamente na função atual de Messi que Renato, com base em seus cursos praianos, ajustou o camisa 7 gremista e o transformou no principal jogador, atuando no Brasil, de 2017. Sei que pelo menos metade dos colunistas do site já está clicando para comentários, mas contenham os dedos um pouco. Quando se fala que Luan foi o melhor, isto não quer dizer que seja um fora-de-série. Por outro lado, tem virtudes acima da média que, neste posicionamento, sobressaem-se em relação às deficiências nada imperceptíveis. Luan não tem velocidade para agredir constantemente a zaga do adversário. Na grande maioria de tentativas como a do segundo gol tricolor, é desarmado com certa facilidade, pois seus toques na bola costumam ser longos e dão chance aos defensores. O chute carece de força natural – o que explica tantos pênaltis perdidos, como ouso imaginar que teria acontecido no primeiro jogo contra o Lanús.
E quais seriam as qualidades que propiciaram seu sucesso? A primeira, escancarada no citado gol, é a tranquilidade. Tanto pode devolver de primeira quanto cadenciar o jogo. Com isso, o Grêmio não fica preso a um ritmo. Pode tanto jogar em velocidade como girando a bola, tendo Luan como único capaz de fazer esta distribuição. Muito se fala em Arthur, mas ele carece da melhor virtude de Luan: visão de jogo, um dos termos menos explicáveis do futebol. É algo que não se aprende. O jogador, desde garoto, tem ou não tem. E não significa apenas o passe preciso. Envolve também a escolha do passe certo, no espaço que a sensibilidade informa ao cérebro em centésimos de segundo. Num resumo grosseiro, visão de jogo é a mistura de técnica com criatividade. No elenco gremista, quem também a possui é o armador Maicon, a despeito da lentidão que irritava os são-paulinos – e mesmo muitos tricolores gaúchos. Mas sua presença teria facilitado as coisas no jogo de ida.
E como se explica a atuação tão fraca em Porto Alegre, em comparação com o primeiro tempo (no segundo, o Grêmio escolheu não jogar) em Lanús? Além de Luan não estar numa noite inspirada, o adversário ajudou a evitar que a inspiração desse as caras. Em vez de marcá-lo em cima, reduziu o espaço entre as linhas e anulou suas opções de passe. Como Luan não rompe defesas, ficou encaixotado. O Corinthians conseguiu efeito similar quando bateu o Grêmio em Porto Alegre – talvez o jogo mais decisivo do título brasileiro, porque tirou o foco do melhor adversário da competição. Porém, tendo que buscar o resultado, os argentinos não apenas sentiram o peso da expectativa, como deram a Luan as alternativas negadas no RS. Não foi apenas por isso que a história foi outra, porque decisão envolve muito mais. Renato Gaúcho também deve ter orientado o pupilo sobre como sair da sinuca. Mas este espaço, que segue mais generoso na América do Sul, ajudou bastante.
Deste triunfo logicamente decorrerão perguntas eufóricas. Luan merece a seleção? Conseguiria destaque num grande time europeu? Comecemos pela seleção. Como os leitores sabem, sou contra convocar jogadores por conta do Campeonato Brasileiro, por razões já explicadas. Mas Luan foi um dos melhores de uma Libertadores – que não é um primor, mas traz um grau de dificuldade maior. Sua capacidade de jogar entre as linhas também o distingue, pois até aqui só temos Neymar fazendo isso – muito melhor, obviamente, mas Luan seria bom um reserva neste papel. E a Europa? Penso que, justamente por render numa tarefa peculiar, é preciso escolher bem o clube. Se for para jogar como atacante aberto, fatalmente será encostado. Também não dará certo como centroavante. Precisa jogar centralizado no meio e treinar forte para mostrar o que ainda não mostrou contra equipes compactas. Terá que pensar mais rápido e melhorar o jogo agressivo. Conseguirá evoluir com quase 25 anos? Só vendo para saber.
De todo modo, esta semana é mais para Luan celebrar que qualquer outra coisa. Daqui a pouco ele e seu Grêmio terão que se concentrar para o Mundial, cientes de que não repetir o vexame colorado (2010) e atleticano (2013) já será algo digno. O Real Madrid é muito superior e, tal como os realmente grandes, não entra pra perder nem em torneio início. Há pequenas esperanças gremistas por conta do mau momento merengue. Contudo, Luan não terá vida fácil, mesmo com o Real se lançando ao ataque. Será acompanhado por Casemiro, um volante que complica até a vida do melhor “entrelinhas” do mundo. Tomara que o confronto aconteça, inclusive para que os leitores confirmem ou desmintam o que falei em outras colunas. Mas, por ora, deixemos que Gaudêncio, Leonel e a turma da avalanche tomem chimarrão alegremente. Eles, o Grêmio e Luan merecem.
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