
Créditos da imagem: Estadão
Santos atual campeão paulista.
Santos no G4 do Brasileiro (mesmo arrebentado pela CBF durante a Copa América).
Santos de 5 jogadores na Seleção Brasileira (somadas a olímpica e a principal).
Santos dos “pra lá” de valorizados meninos Gustavo Henrique, Zeca, Thiago Maia, Vitor Bueno e Gabigol.
Santos que da zona de rebaixamento no Brasileirão de 2015 passou a figurar como candidato ao título de tudo que participa desde então.
Pois é, e ainda assim, há quem reclame (por sorte, uma minoria) de Dorival Júnior no Santos.
E a perseguição (pois não há como ser outra coisa) é tão grande, que até a não utilização de Maxi Rolón (!), contratação feita à revelia do treinador, virou motivo de crítica. Ora, o argentino (dispensado do Barcelona B e sem clube por ocasião de sua chegada) fez uma das partidas mais bisonhas que já vi de um atleta profissional na derrota do Santos para o Corinthians no corrente Brasileirão. Não acertou (literalmente) uma jogada e deu claros sinais de que não tinha condições de vestir a camisa santista. Ou seja, Dorival confirmou a sua percepção e evidenciou o erro da diretoria do clube em que trabalha (sem falar na falta de respeito e confiança dos dirigentes, que aparentemente adoram brincar com o caixa do clube. Por que será, não?).
Em entrevista recente, Dorival deu uma declaração que, penso, não deve passar batida. Em apertado resumo, o treinador colocou o “futebol-arte” à frente dos títulos no Santos, clube que atualmente dirige.
Uma declaração contundente de alguém aparentemente maduro e consciente de sua “função social” dentro de um esporte que é parte da cultura do Brasil, um país futebolisticamente traumatizado e com a autoestima em baixa após o vexame na última Copa.
Embora seja razoável supor que um time que joga em alto nível e dá espetáculo saia vencedor da maioria de suas disputas (atualmente o Barcelona é o exemplo mais acurado do binômio espetáculo + eficiência), a nossa famosa Seleção de 82 é prova e citação clássica de que isso não representa qualquer garantia de troféu. Escrevo isso, pois logo depois da publicação da entrevista com Dorival, li e ouvi inúmeras críticas direcionadas a ele pelo fato de o Santos não ter conquistado a Copa do Brasil do ano passado mesmo tendo, na opinião de muitos, praticado o futebol mais vistoso do País em 2015.
Detalhe que o técnico, tão criticado no ano passado por ter deixado escapar a vaga na Libertadores via Brasileirão e Copa do Brasil, encarou o seguinte cenário por ocasião de seu retorno: a equipe, então órfã de Robinho e na zona de rebaixamento, tinha apenas duas vitórias em 12 jogos, a pior defesa do Campeonato Brasileiro (21 gols sofridos) e vinha de uma sequência de quatro derrotas seguidas (incluindo um 4×1 para o Goiás). E terminaria aquela campanha brigando pelo G4. Mas o São Paulo foi quem se classificou.
Ainda sobre a vaga perdida na Libertadores, só não entendo qual é a culpa (pelo menos não em sua totalidade) de Dorival se foi o presidente Modesto Roma – e não ele – quem alterou as datas das finais contra o Palmeiras (no melhor momento santista na temporada), se Gabigol perdeu um pênalti no primeiro jogo e se o tal Nilson perdeu aquele gol que já entrou para a galeria dos mais imperdíveis da história do clube.
Concordo que o técnico tem uma parcela de responsabilidade por ter escalado o time reserva em momentos questionáveis, poupando equivocadamente os seus titulares. Talvez devesse tê-lo feito apenas com os mais veteranos, como Renato e Ricardo Oliveira. Mas daí a desqualificar um trabalho excepcional de resgate da honra e da qualidade do futebol jogado existe uma grande distância. Ora, o saldo final foi extremamente positivo.
E continua sendo.
Além de que futebol não é uma ciência exata! Nunca foi e jamais será! Assim como perdeu em 2015, Dorival ganhou – dando espetáculo – em 2010, com aquele time liderado por Neymar, Ganso e Robinho. E o melhor, respeitando a essência do futebol brasileiro e do Santos, clube particularmente símbolo da magia, onde Pelé e tantos outros “Meninos da Vila” surgiram.
Ah, “mas ele foi campeão perdendo um dos jogos para o Vitória na finalíssima”. Ora, e daí? Que pensamento raso e mesquinho! Isso é maior do que tudo o que aquele time fez naquela temporada? Poxa, desde o Palmeiras de 96 não nos divertíamos tanto em gramados brasileiros.
Há também os que tiram o mérito de Dorival Júnior daquela conquista pelo fato de o Santos ter um timaço àquela altura. Okay, só espero que assim o façam também quando se lembrarem da escalação do Santos campeão brasileiro de 2002 (de Fábio Costa, Alex, Léo, Renato, Elano, Diego e Robinho); e o da Libertadores de 2011 (de Rafael, Jonathan, Edu Dracena, Arouca, Danilo, Ganso e Neymar). Em outras palavras, que o mesmo pensamento (na linha de que “com aquele time qualquer um seria campeão”) valha para Leão e Muricy Ramalho, respectivamente os técnicos santistas nas referidas conquistas.
Ou dar uma aula de futebol com Pará, Durval, Wesley, Marquinhos, Madson, Zé Love e André no time é a coisa mais natural do mundo?
Por falar em espetáculo, não era justamente jogar bem o que queríamos e exigíamos depois do fatídico 7 x 1 contra a Alemanha? Felipão e Parreira não foram tachados de obsoletos e ultrapassados? Mudar não era preciso? E as tais das ideias novas, de se montar uma equipe em médio/longo prazo, da humildade em aprender com o que há de bom lá fora e todo aquele blá blá blá?
Pois Dorival, assim como Tite (o melhor brasileiro na atualidade), procurou se reciclar, estudou, fez estágio até com o cultuado Pep Guardiola (!) e está tentando colocar em prática todo o conhecimento e experiência adquiridos. Vai conseguir?
Que a gente (imprensa, torcida, dirigentes etc) tenha a decência de pelo menos ter compromisso com o que pensamos e desejamos. Que deixemos trabalhar quem quer entregar ao público um “produto” de primeira qualidade sem essa patrulha chata e pressão por resultados imediatos.
Até porque, nunca é demais lembrar, não faz muito tempo, Cuca – hoje tratado como um técnico de ponta – era estigmatizado por não ter um título de peso. Mesmo o Tite, lá atrás, também o era. E outros – como Celso Roth, também campeão da Libertadores -, sofrem um preconceito que simplesmente não dá para entender.
Por mais coerência. Na vida e no futebol.
E segue o jogo.
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