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No Ângulo | Futebol é preciso

De Ronaldo a Romero, o impacto do marketing que suplanta a bola

01/08/2018

Créditos da imagem: Nike

No último domingo, o atacante paraguaio Angel Romero chegou à marca dos 37 gols com a camisa corintiana, superando assim os números de Ronaldo, que parou nos 35.

Ronaldo jogou dois anos pelo Timão, e comemorou os títulos paulista e da Copa do Brasil, em 2009, tendo brilhado nas duas conquistas.

Depois disso seu desempenho caiu muito, natural para quem estava prestes a encerrar a carreira, e visivelmente acima do peso. O Fenômeno pouco fez na temporada de 2010, quando o time não ganhou nada e jogou um futebol abaixo da crítica.

Ronaldo esteve em campo e nada fez para evitar que o Tolima se tornasse um inusitado algoz na Pré-Libertadores de 2011. Com Ronaldo, naquele instante o time jogava com dez.

Resumindo: Ronaldo teve uma boa passagem pelo Corinthians. E nada mais. Porém, seus dois anos de Corinthians são supervalorizados e há quem o considere o maior 9 da história do clube. Uma afronta a Baltazar, Casagrande, Viola….

Ronaldo foi um senhor jogador de futebol. Encantou o mundo, não foi à toa. Mas, tudo que ele fez na carreira ganhou uma boa dose de exagero. Seu marketing pessoal é responsável por isso.

Um exemplo. Todos se referem a ele como o cara da seleção no pentacampeonato de 2002. Se só o aspecto bola valesse, Rivaldo seria consagrado como o craque da Copa, sem maiores discussões.

Craque em campo e fora dele, Ronaldo foi pioneiro do marketing pessoal no futebol brasileiro enquanto atleta. Em tempos que não havia redes sociais, a figura do R9 foi difundida como sinônimo de sucesso e a expressão máxima de nossa cultura através do futebol.

Mérito dele, é bom que se diga.

Anos depois, Ronaldinho Gaúcho aperfeiçoou a estratégia, e Neymar a consagra de vez nos dias de hoje.

No caso de Romero, a história é outra.

Chegou ao Corinthians com pouca fama, após se destacar no Cerro Portenho, ao lado do irmão gêmeo. Aliás, Romero chegou com a fama de falso Romero, pois o mano seria muito melhor.

Seu começo no Brasil foi difícil. Se percebia que tratava-se de uma figura retraída e com dificuldade para se adaptar a um país tão complicado quanto o nosso.

Enquanto isso, comentaristas esportivos se esbaldavam em críticas maldosas a respeito do futebol e até do país de origem do bom rapaz.

Certa vez, o comentarista Alexandre Oliveira, famoso pelo abuso de gracinhas, foi além e chegou a dizer que Romero era incapaz de praticar esse esporte que tantos amamos chamado futebol.

Aos poucos, o paraguaio ganhou espaço através da vontade, de uma determinação pouco vista no futebol brasileiro atual.

Aos críticos, passou a ser conveniente a utilização de outra pecha sobre Romero. A de atacante que só sabe marcar, mas que apanha da bola.

Três anos após sua chegada, Romero se torna em 2018 o principal jogador do Corinthians, tendo na sua trajetória com a camisa 11 do Corinthians as conquistas de dois Campeonatos Brasileiros e dois Paulistas.

E com a confiança nas alturas, assume a responsabilidade por ser um dos mais velhos de casa dentro de um elenco em constante reconstrução. Seu futebol aparece de maneira avassaladora com 5 gols em quatro dias, com direito a música no Fantástico.

Ao fim do jogo contra o Vasco, o excelente repórter Edgard Alencar perguntou a Romero se aquele era seu primeiro hat-trick. “Já fiz muitos no Paraguai”, respondeu ele.

Ou seja. Estava longe de ser o perna-de-pau que a imprensa elegeu.

No que diz respeito a história do Corinthians, a contribuição de Romero já se faz muito mais relevante do que a de Ronaldo.

Mas no que diz respeito ao marketing pessoal, sempre haverá um abismo entre o Fenômeno e Romero.

E isso faz toda a diferença para um público imediatista e que cultua tanto a imagem pública, mais do que o futebol.