
Créditos da imagem: Disney
Soube nesta semana que um torcedor do São Paulo esfaqueou dois corintianos numa estação de metrô ao ser chamado de “bambi”. Ambos foram internados no hospital das clínicas e seguem em observação.
Outro dia, o ex-jogador Zinho comentou que o jogador Emerson Sheike, recém contratado pelo Corinthians e com passagem pelo São Paulo, “não virou bambi no Morumbi”. O jornalista Menon, da UOL, concluiu que ao ver o total desrespeito de Zinho com a torcida do São Paulo, percebeu que, modestamente, acertou na mosca nas suas convicções sobre o tema. Nem vou falar de homofobia, que eu vejo evidente na frase sobre bambis. Fiquemos no desrespeito.
A torcida do São Paulo não assimilou o bambi, como outras assimilaram maloqueiro, porco, urubu, favelado. Há, inclusive, uma identificação maciça e fácil diante desses termos. Músicas são cantadas e o evidente orgulho é sentido pelos torcedores: “sou, sim, maloqueiro e sofredor graças a Deus”. Não há um juízo de valor aqui. Apenas o fato. Não aceitaram. Se não aceitaram, não diga. Se disser, saiba que está ofendendo uma torcida e uma instituição.
O pó de arroz, para quem não sabe, surgiu no Rio de Janeiro quando, na década de 10, jogadores negros não eram bem vindos nos eventos de futebol da aristocracia inglesa e passavam pó de arroz para parecerem “menos negros” – ou “mais brancos”. Dessa forma eram aceitos nos gramados e, com talento sempre superior, davam shows em suas jornadas.
O “bambi” surgiu pelo “pós de arroz” (usado inclusive por Leônidas da Silva quando ele atuava no São Paulo Atletic Club – que depois virou “São Paulo Futebol Clube) – e ganhou forma numa fala absolutamente infeliz de um sujeito que é apenas folclore no futebol brasileiro: Vampeta. O termo cativou os corintianos por ter sido dito por um ex-jogador do time e, depois, santistas, palmeirenses e outros o aderiram. Hoje, são-paulino é sinônimo de gay, bichinha, bambi, rosinha.
Se pensarmos numa sociedade extremamente machista como a do futebol é, no mínimo imprudente o reforço dessa logomarca cultural. Assim como o caso dos corintianos esfaqueados hoje, muitas brigas já aconteceram e tendem a acontecer. Primeiro que fazer uma avaliação (julgamento de valor) sobre ser (ou não) gay é um absurdo.
É como chamar a torcida de um time de “catoliquinhos”, “adventistazinhos” e outros. Juízo de valor é algo perigoso. Lidar com sexualidade, opção política ou religiosa é sempre um desastre iminente. Quer mais que a briga entre petistas e psdbistas? Quantas pessoas já se feriram e morreram nesses combates entre a esquerda e a direita? Há de se tomar mais cuidado com isso.
Talvez muita gente ainda irá se machucar e até perder a vida. Lamentavelmente esse mundo do futebol cria idiotices que não tem explicação nem razão de ser. Idiotices regadas e estimuladas pelos Netos, Zinhos, Vampetas da vida.
Quer ver mais uma? Muita gente – se aqui não escrever – vai pensar: “nossa, quanto mi-mi-mi” nesse texto. Sim, amigo, você que gosta de chamar um torcedor de “Bambi” deve ter dificuldades para refutar os argumentos aqui presentes. Apenas friso que ninguém saiu machucado até hoje por ser chamado de “porco”, ‘maloqueiro sofredor” ou “sardinha”. Será que isso quer dizer alguma coisa? Pensem.
Em tempo: sim, sou são-paulino e tenho vários amigos gays – homens e mulheres, amigos, amigas… O que friso nessa reflexão não é a opção sexual de ninguém, mas sim que estão colocando fogo num barril de querosene.
O resultado está começando a surgir. E não é nada bom…
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