
Créditos da imagem: Bruno Cantini
E foi confirmada mais uma derrota do futebol brasileiro: Robinho, que no país só tinha vestido a camisa do Santos, fechou com o Atlético Mineiro.
A repatriação do craque, em si, é muito boa para o nosso futebol. Multicampeão, nacionalmente famoso e “jogador de Copa do Mundo”, o atacante é um dos maiores personagens dos nossos gramados neste século e, de fato, é “o cara que desce por último do ônibus”, conforme desejado pela diretoria do clube mineiro. Ao contrário do que projetam muitos analistas, aposto que Robinho será titular com facilidade e terá um papel importante no ano do Galo. Penso que, jogando no Brasil, o ex-santista sempre se mostrou um extra-classe. O torcedor atleticano tem motivos para ficar animado.
De resto, todo o futebol brasileiro perde. Robinho era o maior símbolo da retomada do Santos como grande clube para além da Era Pelé.
De 2002 – quando surgiu como um meteoro, foi o maior nome da conquista do Brasileirão que tirou o alvinegro praiano da fila e virou mania nacional como o “garoto carismático que encarna a essência do futebol brasileiro como há muito não se via” -, a 2005 – quando já tinha se consolidado incontestavelmente como “o craque do país” e se tornado a maior promessa do futebol mundial (hoje pode parecer exagero, mas a história não pode ser reescrita de frente pra trás) até ir para o Real Madrid (e fazer uma estreia digna de merecer “Y Dios Creó a Robinho” na capa do Diário As) – ele foi uma espécie de “Neymar B”.
Após não ter sido o que se esperava na Europa, mas sendo um jogador de classe mundial – o craque retornou “em caráter excepcional” para o Santos em 2010 – após problemas com o técnico Roberto Mancini no City – a fim de recuperar o ritmo e a confiança para chegar bem à Copa do Mundo (na qual foi titular e teve bom papel), e fez parte de um time encantador que ficou conhecido como “Santástico”. Sua estrela no Santos era tão grande que sua chegada coincidiu com o desabrochar de Neymar e Ganso. Apesar de dentro de campo ter sido coadjuvante da dupla, teve papel determinante para o sucesso daquela equipe. À época, tinha o maior salário do Brasil, superior inclusive ao de Ronaldo Fenômeno no Corinthians. Deixou o Santos para ir ao gigante Milan. Até aí, tudo dentro do script.
Apesar de ter podido retornar antes à Baixada, o problema começou mesmo após a sua terceira passagem pelo clube, entre o segundo semestre de 2014 e o primeiro de 2015. Aos 31 anos, depois de ser o líder moral do elenco, conquistar o Campeonato Paulista 2015 e retornar à Seleção Brasileira, Robinho novamente deixou a Vila Belmiro. Desta vez, não para um gigante europeu, mas sim para atuar na China, onde acabou sendo reserva. Em vez de privilegiar a carreira e sua história em um dos maiores clubes do futebol mundial, optou pelo lado financeiro.
A verdade é que desde que deixou o alvinegro praiano em 2005, Robinho nunca mais se prestou a fazer carreira no clube. Foram passagens de ocasião, regadas a cifras milionárias (como o atleta bem fez por merecer ao longo de sua carreira), iguais ou superiores ao que se comentava à época que poderia receber em qualquer outro clube do país. Ou seja, não fez sacrifícios.
Muito tem se falado sobre o Santos ainda ter dívidas com Robinho pela sua última passagem. Mas o fato é que estavam em negociações oficias. Se isso fosse um impeditivo, ele e seu staff sequer negociariam com o devedor. Infelizmente esse absurdo é corriqueiro no nosso futebol, como bem ilustrou o Corinthians campeão brasileiro em 2015. E se ilude quem pensa que ele está livre disso no Atlético, aliás, ao que consta o Galo deve milhões a Ronaldinho.
É bom deixar claro que Robinho tem todo o direito de escolher jogar onde quiser, e que essa decisão não tem nada a ver com o seu caráter. Apenas escancara a falta de apreço com o legado que poderia ter cultivado no Santos. Ele tinha tudo para ser um ídolo imortal, como são Marcos e Rogério Ceni no Palmeiras e no São Paulo, respectivamente. Hoje, é alvo de compreensíveis faixas de revolta da torcida santista.
Isso fala muito do nosso momento futebolístico, da falta de referências, do crescente êxodo para locais como China e Catar. Enquanto isso, Gerrard é homenageado em Liverpool, Tévez retorna ao Boca Juniors quando quase toda a Europa o cobiçava, Messi deixa claro que encerrará a carreira ou no Barcelona ou no Newell’s Old Boys, ex-jogadores como Luis Enrique, Gallardo e Zidane são treinadores de seus ex-clubes, etc…
Muitos dizem que os jogadores são profissionais. Sim, é evidente que são. Mas ninguém pode dizer que os valores oferecidos pelo Santos (cerca de 30% abaixo dos do Atlético, de acordo com o dito na imprensa) são baixos. Eu mesmo, “reles mortal”, sou capaz de abrir mão de uma oferta 30% mais alta por um trabalho que eu prefira, e conheço muitas outras pessoas assim. Imagine então para profissionais (merecidamente) milionários como jogadores de destaque. E muito me admira ver tanta gente da imprensa (especialmente os que posam de tão idealistas) naturalizando essa visão de o dinheiro determinar em 100% uma negociação.
Enfim, nunca vi ninguém chorar de emoção por causa de uma empresa privada, mas milhões choram pela paixão do futebol. Tampouco vi um profissional corporativo ser festejado em todo lado, não pagar contas em restaurantes, etc, e ser “rei” de uma cidade como Robinho era em Santos. Isso para não dizer que no Peixe ele teria lugar para trabalhar o resto da vida, como Gerente de Futebol ou o que fosse.
Ao encerrar a carreira e olhar para trás, que diferença faria ter um patrimônio de, digamos, R$ 220 milhões em vez de R$ 215 milhões?
Como bem defendeu o colega Fernando Prado, ser ídolo é um privilégio, justamente pela paixão envolvida no futebol. Paixão essa que atitudes como a de Robinho ajudam a matar.