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No Ângulo | Futebol é preciso

Verdade inconveniente – a Copa do Mundo não é mais aquela (e não é de hoje)

14/06/2018

Créditos da imagem: UOL Esporte

Pesquisas mostram que nunca foi tão reduzido o interesse do público brasileiro a tão poucos dias da Copa. Várias razões são procuradas. A mais aludida é a situação do país, que praticamente não vive sensação de calmaria desde o 7 a 1. Mas o Brasil já teve outras crises e nenhuma delas, nem mesmo a tensão dos anos de chumbo, desviou a atenção nas semanas anteriores ao Mundial. Copa do Mundo era prioridade. Não é mais. Talvez não apenas do brasileiro. Talvez, aos poucos, as pessoas estejam se dando conta de que, ao contrário dos Jogos Olímpicos, é uma ilusão acreditar que verão o melhor do esporte em quatro semanas. Muita coisa mudou e nem tudo fez bem à maior competição do planeta.

Com poucas exceções (incluindo o futebol), esportistas têm o apogeu planejado para as Olimpíadas. Mundiais são importantes, mas secundários. Mesmo o basquete masculino norte-americano só cogita enviar os maiores astros da NBA na disputa olímpica. Isto implica toda uma programação física para que os competidores estejam em suas melhores condições no momento das provas olímpicas. Pode-se imaginar que a Copa do Mundo causa a mesma estratégia com o futebol. Neste caso, a imaginação é realmente fantasia. É preciso ser muito desavisado para não ver que o período de preparação é, acima de tudo, um pisar em ovos torcendo para que nenhum quebre antes da Copa – sabendo que, ainda assim, alguns quebrarão durante a mesma. No lugar do famoso polimento olímpico para dar o melhor nos jogos, os jogadores da Copa farão o melhor que der – se der.

Como isso aconteceu? Essencialmente, com o inchaço do calendário europeu. Décadas atrás, era ficção científica um jogador de um clube da Europa fazer mais de cinquenta partidas no espaço de um ano. Hoje vários beiram ou atingem as setenta. Ainda jogam menos que aqui, mas em diferença muito menor. A antiga Copa dos Campeões não tinha primeira fase. Era disputada – adivinhem – apenas por campeões nacionais. Hoje consome seis datas a mais – fora o qualificatório. Com as datas FIFA e Copas locais, são raras as semanas inteiras para treinar – velha desculpa dos técnicos brasileiros. Nem mesmo os elencos maiores têm permitido poupar os principais jogadores, ante a busca por marcas e também pelos valores. O futebol inglês é o campeão do exagero. Duas Copas locais e jogos entre Natal e ano novo. O público adora. Os atletas, nem tanto.

Jogando mais que antes, com planejamento clubístico para darem a raspa do tacho nas semanas finais, grande parte dos jogadores se apresenta às seleções com os corpos bastante desgastados. Mesmo com pouco tempo até a estreia, as sessões precisam ser dosadas. Coletivos diários entre titulares e reservas, como em épocas passadas, nem pensar. Para desespero dos comentaristas histriônicos (“esse time não treina!”), folgas ocorrem com frequência. Só assim poderão aguentar as sonhadas sete partidas no intervalo de um mês. Não estarão, contudo, em suas melhores condições. Apenas nas melhores condições possíveis. Poderão fazer bons – eventualmente, ótimos – jogos, mas muito dificilmente algum entrará no top 10 de suas atuações da carreira. O torcedor, ainda que no subconsciente, vai entendendo disso.

Não é apenas a percepção que não verá os ídolos no auge que reduz o interesse. As transmissões de todos os campeonatos, por TV a cabo e internet, tiveram um efeito colateral: poucas novidades e surpresas. A Copa do Mundo costumava ser o evento em que, finalmente, os espectadores conheceriam o que cada seleção tinha a oferecer. Mesmo os mais falados eram pouco vistos, de modo que a curiosidade só seria satisfeita de quatro em quatro anos. Hoje, num ano, você pode ver Messi e Cristiano Ronaldo mais do que teria visto Maradona em toda a sua vida. O colega Émerson Figueiredo me relatou que, antes de 1974, só se conhecia Cruyff pelos jornais. Se jogasse hoje, saberíamos até seus eventuais cacoetes. Já pensaram, ainda nos anos 1990, na curiosidade por um atacante egípcio tido como craque? Agora não só conhecemos, como até entendemos a revolta mundial com sua lesão.

Sem a expectativa para ser apresentado aos grandes nomes, bem como sabendo que provavelmente não repetirão o que jogam nos clubes (agora para o delírio dos comentaristas histriônicos), a tendência é que o torcedor perca interesse Copa após Copa. A não ser que as técnicas evoluam a ponto de permitir recuperação recorde de potencial em reduzidas semanas. Existe também uma esperança para a Copa de 2022, pois esta ocorrerá no meio da temporada europeia – portanto, com os jogadores ainda na ponta dos cascos. O caminho pode – ate deve – ser esse. O certo é que, se o cenário não mudar, as novas gerações ainda pensarão “ih, lá vem aquela chata da Copa do Mundo” – para desespero dos tiozões.