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No Ângulo | Futebol é preciso

Tem mulher no futebol

23/07/2015

Créditos da imagem: Stella Brazil

Terminou no último domingo a Copa do Mundo de futebol feminino no Canadá. Pela primeira vez, o torneio contou com 24 seleções, as quais disputaram o título em seis cidades canadenses.

No entanto, apesar da importância da competição, talvez pouca gente tenha tomado conhecimento de sua existência, e, se tomou, provavelmente foi por ocasião da eliminação da Seleção Brasileira pelas australianas nas oitavas-de-final, já que o papel da imprensa brasileira foi decisivo em disseminar a informação sobre a derrota do time de Marta.

Fora do Brasil, a ênfase não foi nem um pouco sobre a derrota das brasileiras em si, mas pelo triunfo da seleção da Austrália sobre um time tido como quase imbatível, uma potência em termos de futebol. Mas é questionável o quanto dessa imagem se dá pelo sucesso do time masculino e da falsa visão de que o Brasil é o reino do esporte – para ambos, homens e mulheres. Explico: a verdade do lado de dentro é bem diferente e estarrece os estrangeiros. No Brasil, futebol é um domínio totalmente masculino. Neste esporte, a mulher só é agraciada se for bonita – não importando o talento e capacidade no controle da bola. A longa dominância masculina no esporte e a manutenção do status quo pela mídia esportiva (também ainda largamente controlada pelos homens) ainda no século 21 coloca a mulher ou em plano de subordinação ou inferioridade. Muitas vezes ela só serve se encher os olhos acompanhando o marido ou namorado ao estádio de futebol ou, se atleta, nas páginas de revista masculina.

Talvez o maior momento em termos de abordagem estrangeira sobre o futebol no Brasil tenha acontecido graças às declarações do coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha, que viraram piada internacional. Em entrevista a um jornal canadense, o dirigente afirmou:

“Agora as mulheres estão ficando mais bonitas, passando maquiagem. Elas vão a campo de uma maneira mais elegante. Futebol feminino costumava copiar o futebol masculino. Até nos modelos de camisa, que era masculino. Nós vestíamos as meninas como garotos. Então faltava o espírito de elegância, de feminilidade. Agora os shorts são mais curtos, os cabelos são bem feitos. Não são mulheres vestidas como homens”, disse ao “The Globe and Mail”.

Irritado com a suposta interpretação machista, Cunha concedeu novas entrevistas e tentou explicar o mal-entendido. Diz agora que, pelo uso de uniforme próprio, mais adequado ao corpo feminino, as jogadoras têm mais auto-estima e conquistaram seu espaço. Será mesmo?

Claro que a disputa por espaço na mídia tupiniquim durante a Copa do Mundo feminina foi complicada: àquela altura, os meninos disputavam o Mundial Sub-20 na Nova Zelândia e, logo depois, a seleção principal masculina iniciava a sua trajetória na Copa América, no Chile. De qualquer forma, a diferença das capas dos principais jornais do país no dia da abertura do torneio no Canadá – se comparada com a frenética tietagem quando da abertura dos mundiais masculinos – é gritante. Com exceção de uma publicação de São Paulo, somente jornais online do interior noticiavam o acontecimento.

Voltando à Copa, depois de três partidas com 100% de aproveitamento, as meninas do Brasil foram eliminadas pelas australianas com um 1×0 magrinho. E, nesse caso, perder não é necessariamente ruim. Serve para expor a dura realidade que as atletas enfrentam desde que o Ministério do Desporto permitiu que as mulheres jogassem futebol, em 1979. Por todos esses anos, a CBF tenta cobrir a realidade interna com panos quentes e dá um jeito de colocar em campo uma seleção feminina (composta de persistentes jogadoras que, pelo sonho de jogar futebol, e em razão da “marca Brasil”, conseguem um contrato no exterior para tão somente lá poderem desenvolver o seu talento).

Daí vem aqueles que reclamam que não há retorno de investimento no futebol brasileiro. Claro que não, da mesma forma que times de juniores também não atraem audiência, nem patrocínio. Porque esse é o estágio em que o futebol feminino se encontra, aliado ao constante bombardeamento negativo sobre aquelas que o praticam. Menina não aprende a chutar uma bola desde criança, raramente aprende o esporte na escola, já que a divisão entre esportes masculinos e femininos ainda é clara. Apenas jogando ocasionalmente na rua e talvez na adolescência não será possível desenvolver o talento em sua plenitude, o que inevitavelmente reflete na qualidade dos jogos femininos. Além da óbvia diferença física entre homens e mulheres, que, de tão evidentes, não aprofundarei.

A vitória das australianas sobre as brasileiras, assim como a vitória dos EUA no mundial, não aconteceram por acaso. Para se ter uma ideia sobre planejamento, na Austrália, meninos e meninas começam a aprender futebol a partir dos dois anos e meio de idade em escolinhas particulares. Aos cinco, passam a jogar em clubes locais e na escola. E ambos os sexos podem dividir o campo até 14-15 anos, em times classificados de acordo com a habilidade dos jogadores e jogadoras, e não pelo gênero. Já os Estados Unidos investem nos esportes femininos desde 1970, quando escolas e universidades foram obrigadas por lei a proporcionar igualmente o acesso a todos os esportes aos meninos e meninas.

Sendo assim, eu humildemente recomendaria aos rançosos que saiam da toca do preconceito que habitam e os convidaria a assistir algumas das partidas jogadas no Canadá neste ano. As mulheres que tiveram oportunidade de desenvolver seu talento em países não-machistas – e com algumas exceções marcadas pela determinação das jogadoras – mostram um futebol marcado pela habilidade e pelo respeito às regras. E sem colocar a culpa da derrota em uma suposta virose (ah, Dunga!).

Não à toa os comentaristas esportivos elogiaram a atuação da arbitragem durante a Copa do Mundo feminina. Isso porque o futebol entre as mulheres ainda é pautado pela magia, pelo senso coletivo e Fair Play. Pena o futebol feminino do Brasil ser exceção. Talvez pelo comando de uma equipe técnica totalmente masculina, o time foi truculento e reclamão. Que fique a lição para o Pan e para as Olimpíadas, de que o futebol feminino ainda é um jogo puro em sua essência, e que isso possa inspirar as mães de meninas e as meninas por si mesmas a quererem ser como a Marta, a Formiga, a Tamires etc.

Mas com o ranço do machismo ancião e a manutenção de diretores como Cunha, a batalha promete ser longa.