
Créditos da imagem: Blade Runner
Fosse um famoso filme de Ridley Scott, um dos protagonistas poderia dizer que “já houve um sonho chamado São Paulo Futebol Clube”. Um time que uniria a tradição do extinto Paulistano à eterna busca do novo. Depois que décadas de evolução trouxeram os títulos continentais e a conquista do mundo nos anos 1990, a junção de objetivos nunca pareceu tão realizada. Quando os dez anos de vacas magras deram lugar a novas glórias, a euforia foi tanta que criaram o rótulo de “soberano”. Mal se sabia que, tal como em Roma, da bonança viria a tempestade da decadência. Tempestade é pouco. A soberba e a incompetência estão destruindo o mais vencedor dos brasileiros, com força de um furacão cujo olho está na mente atrasada de seus cardeais.
O império tricolor não se contenta em agonizar silenciosamente. Nesta semana, mais um ruidoso capítulo aconteceu no CT da Barra Funda. Depois de promover banhos de sal grosso no Morumbi, palestra com sobrevivente de desastre aéreo e promover Muricy Ramalho a entidade espiritual contra a queda, a diretoria realizou o encontro de torcedores não-uniformizados com o “diretor remunerante” de futebol, o técnico e os atletas. Tudo com a presença de Raí, numa jornada mais triste que quando perdeu dois pênaltis contra o Corinthians (ao menos estava tentando acertar). Para não dizer que esqueceram o torcedor “comum”, selecionaram blogueiros e twitteiros chapa-branca – incluindo aquele que inicia os posts chamando a “nação do maior do mundo” para garantir seguidores e dividendos.
A simples ideia de atrapalhar uma tarde de treinos é lamentável por si mesma. Fazê-lo obrigando os já pressionados profissionais a encarar torcedores (que, pelo horário, não têm mais o que fazer) é jogar pelo ralo qualquer resquício do que distinguia o tricolor. Não há mais diferença para o pior dos rivais. Isso na melhor das hipóteses, porque estes conseguiram se reerguer após momentos tenebrosos. O São Paulo, com seu cardealismo carcomido, é capaz de levar quase uma década para tirar um grupo inepto do poder. Foi assim depois de 1994 – e por míseros quatro votos, em 2002. Está sendo assim agora, com a “chapa amarela” permanecendo por mais três anos com a reeleição de Leco, o herdeiro menos esperto de Juvenal. Anos de fracassos e humilhações não bastam. Só se acabarem os favores, ingressos, voos da alegria, etc…
Não é só. Se fosse questão de trocar de amarelo para outra cor, poderíamos qualificar a missão como apenas muito difícil. Mas seria tão simples se fosse tão simples. Quando se olha para a oposição, tampouco se vislumbra ideias – ou suspeitas – diversas das vigentes. Muitos foram aliados de JJ. Outros não foram, porém já se mostraram capazes de projetos mambembes como o São Paulo Madrid, clube amador da capital espanhola que exporia a marca do clube na Europa. Não é piada, aconteceu mesmo! Sorte que nem os jornalistas corintianos foram atrás, ou descobririam que o “poderoso” SPM apanhava em campos de areia. Não há para onde correr. Pegando outro filme de carona, desta vez de Mel Brooks, podemos ver o Dark Helmet de “Spaceballs” berrando “I’m surrounded by assholes!!!!”.
Qual a saída? Posso dizer, depois de quinze anos presenciando e debatendo o que virou o SPFC, que não tenho a menor ideia. Ou tenho. O São Paulo não precisa de resgate. Tem que ser refundado. Só assim os são-paulinos poderão sonhar com aquele tricolor de vanguarda e sem se perder em esnobismos estúpidos. Este que estamos vendo pode até sobreviver a mais um Campeonato Brasileiro na primeira divisão. Nem por isso conseguirá disfarçar que já está rebaixado a um clube de quinta categoria. Curta vida ao Botafogo do Jardim Leonor!
PS: peço desculpas aos botafoguenses, cujo time está em situação bem melhor. Recebam isso como “sutil vingança” pelo caso Hiroshi.