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No Ângulo | Futebol é preciso

Sobre uma grande inverdade normalmente dita a respeito de Telê Santana

06/12/2017

Créditos da imagem: Anibal Philot/Reuters

Destruindo mitos – a lenda de que o Mestre não manjava de tática

Desde a primeira vez que acessei o site, chamou a atenção a enquete sobre o melhor técnico. Usualmente a citação de Telê Santana e Vanderlei Luxemburgo leva a uma dicotomia que ouso chamar de estúpida – como tantas outras quando o tema é comparar ícones do esporte brasileiro. Refiro-me à tendência de dizer que Luxemburgo era o gênio tático, enquanto Telê era meramente um treinador de fundamentos técnicos. O pior é que isso é endossado até por quem chegou a trabalhar com ele, como Caio Ribeiro – um dos piores comentaristas quando o tema é tática, com seu eterno “tira o volante”. Telê foi, pois sim, um técnico de grandes inovações táticas. Apenas não fazia propaganda disso.

Em suas entrevistas recentes, Luxemburgo diz que foi o introdutor do “falso 9” no Brasil, com Evair no campeonato brasileiro de 1993. Faltou anotar que, um ano e meio antes, o SPFC só tinha um 9 no número da camisa. Palhinha recuava para criar o jogo, permitindo a Raí o avanço como pivô. Quando o SPFC estava na fase final do Paulistão de 1992, menos de dois meses de enfrentar o Barcelona, veio outra novidade. Elivélton perdeu o lugar como quarto homem de meio-campo, aberto pela esquerda. Como Vítor vinha treinando muito bem, ganhou a lateral e Cafu se tornou terceiro volante com chegada ofensiva – posição em que liquidou o Palmeiras na decisão estadual. Foi assim que o equilíbrio tricolor anulou o Barça do jovem volante Guardiola. O São Paulo jogava e não deixava jogar, sem precisar de marcação individual para isso. Aliás, hoje não se usa mais este tipo de defesa, demonstrando que Telê via o futuro melhor que muitos da então nova geração.

Tais tentativas não foram exceções em sua carreira. No São Paulo campeão brasileiro de 1991, uma das armas foi escalar Ronaldo (então reserva do reserva na zaga) como volante. Motivo: liberar o lateral-esquerdo Leonardo para surpreender como meia – posição em que se firmaria mais adiante, inclusive no tricolor. Na Libertadores de 1992, quando o time titular passava por dificuldades, usou simplesmente cinco zagueiros de origem. Além de Antônio Carlos e Ronaldo, Ivan Rocha era lateral e os volantes eram Pintado e Adílson. Talvez nem Carpegiani tivesse coragem de chegar a tanto. Telê inventou e deu certo. Como quase deu certo quando, em 1982, horrorizou imprensa e torcida ao tirar o ponta-direita para encaixar Sócrates, Zico, Falcão e Cerezo. O mesmo Cerezo que, no bicampeonato mundial de clubes, seria terceiro volante contra o Milan, marcando um gol e dando o passe decisivo. Que técnico “de fundamentos” desafiaria tanto os padrões?

O futebol trouxe e traz técnicos geniais que estudam e redigem suas descobertas, como Rinus Michels e Pep Guardiola. Telê não fez parte deste grupo. Seu método sempre foi empírico, intuitivo e fechado ao próprio autor. Raramente – ou nunca – falou em esquemas com números ou maiores explicações. Por isso suas qualidades táticas foram esquecidas e a atenção aos fundamentos (que fizeram o limitado defensor Ronaldo chegar à Copa) prevaleceu. Como se fosse possível acertar muitos passes, chutes e dribles sem posicionamento e movimentação adequados. O que realmente não fazia, como confirmou Raí num Resenha da ESPN, era moldar o time conforme o adversário. O que não impediu que, na prática, o São Paulo encarasse catalães e milaneses sem dramas. Era um time competitivo – e normalmente favorito – contra qualquer um. Até que o desmanche e o desgaste (não era fácil conviver com ele) foram encerrando o mais belo capítulo tricolor.

Enfim, foram várias formações originais e bem sucedidas. Mas qual o princípio que fazia elas funcionarem? Falando francamente, ninguém sabe. Quando poderia ter pensado na posteridade e passado os conhecimentos para o papel, seu objetivo se tornou prorrogar a vida. Ninguém (muito menos Muricy Ramalho) conseguiu captar seus conceitos intuitivos. Isso explica por que Telê representa uma grande lembrança, mas não uma grande herança para o SPFC. Para completar, os documentários e biografias até aqui preferiram os clichês a analisar suas equipes. Os vídeos estão aí, mas não há quem se debruce para desvendar uma das mentes mais criativas – e a mais inatingida – dos técnicos brasileiros. Os medíocres agradecem.

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