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No Ângulo | Futebol é preciso

Sobre o preço dos ingressos

11/05/2018

Créditos da imagem: Werther Santana

Quanto vale o show?

A questão do preço dos ingressos tem tomado conta de programas de TV e das redes sociais. Será que os clubes exploram seus torcedores? Será que os torcedores estão dispostos a pagar menos para ver jogos menos interessantes? Como tem sido o comportamento do torcedor de maneira consolidada? Me parece que há espaço para melhorias, mas existem entraves e amarras que precisam ser quebrados, bem como é fundamental que todos desçam dos palanques e tentem entender a dinâmica operacional do tema e a realidade dos preços.

Já mostrei num estudo recente que o preço médio dos ingressos no Brasil não é substancialmente mais caro hoje do que há 20 ou 30 anos. Mas ainda assim, dado alguns clubes praticarem preços mais elevados, fica sempre em voga o debate sobre preço.

Pois bem, precisamos contextualizar o assunto. Primeiro, as discussões costumam se limitar aos preços de jogos de Corinthians e Flamengo. Raramente vejo estes debates acalorados em jogos de outros clubes. Parte-se da premissa de que estes clubes detém o monopólio da torcida de baixa renda. Naturalmente que isto é um erro estatístico. Geralmente as torcidas possuem componentes de todas as camadas sociais.

Um comparativo entre os clubes de São Paulo referente ao Público do Campeonato Brasileiro de 2017 mostra o seguinte:

Enquanto o Corinthians e sua suposta torcida do povo teve ocupação média de 84%, com 40 mil espectadores por partida – 90% deles vindo dos programas de sócio torcedor – e ticket médio de R$ 57,59, o São Paulo, considerado de elite por muito, ocupou apenas 63% do estádio, mesmo com ticket médio de R$ 25,62 (44% do valor cobrado pelo Corinthians) e levou cerca de 36 mil torcedores por jogo. Com um detalhe: apenas 13% eram sócios torcedores.

Mas vamos a mais uma contextualização: enquanto o Corinthians teve um campeonato vitorioso, o São Paulo brigou contra a zona de rebaixamento boa parte da competição, e a estratégia da Diretoria para chamar o torcedor foi de baixar o preço do ingresso. Sendo honesto intelectualmente, em 2016 o São Paulo apresentou ticket médio de R$ 21,87 com 35% de taxa de ocupação, enquanto o Corinthians, com desempenho apenas regular no campeonato, teve ticket médio de R$ 53,42 e 64% de ocupação. Logo, a questão que se coloca é econômica: a oferta de assentos está dada, mas a demanda dependerá sempre do desempenho em campo. Desta forma, a formação de preço depende justamente desse aspecto.

Além disso, há outros componentes que influenciam nesta conta: o primeiro deles são os programas de Sócio Torcedor, que travam o acesso do estádio prioritariamente a quem faz parte deles. Desta forma, os lugares mais baratos são automática e rapidamente ocupados por estes torcedores. Outro componente que dificulta a gestão é a impossibilidade de revenda de ingressos. Se os clubes pudessem receber ingressos de volta e recolocá-los à disposição, poderiam fazer promoções para trazer novos torcedores ao campo.

Agora, se por um lado os programas de sócios torcedores são importantes para garantir renda adicional aos clubes independente de presença em estádio, também dificultam as ações de gestão de preços para jogos menos interessantes. De qualquer forma, vamos analisar uma partida importante na Arena Corinthians em termos de distribuição de preços e disponibilidade de assentos. Trata-se da final do Campeonato Paulista de 2017.

Note que 18% do estádio naquela partida tinha ingresso a preço de R$ 30,74 e que representava 3,3% do valor do salário mínimo. Mesmo o valor total representou 6,5% do salário mínimo, na média. Para termos uma medida de comparação, a final do Campeonato Paulista de 1995 teve preço médio que representava 9,9% do salário mínimo daquele ano. Observe que apenas 11% da Arena Corinthians teve ingresso proporcional ao salário mínimo superior à final de 1995.

Agora, isto significa que é impossível fazer ainda mais? Não. Um dos objetivos e desafios dos gestores de estádios, seja de futebol, da NBA, da NFL, é o de encontrar o equilíbrio entre público e preço, para maximizar a receita, mas também a experiência do torcedor e a vibração da partida. O fato é que ao longo dos últimos anos, a média do Campeonato Brasileiro nunca se alterou de maneira relevante, conforme a tabela abaixo, mesmo com preços flutuando no tempo.

Veja que em 2013 os ingressos tiveram crescimento real de 23%, ano em que o público médio cresceu 15%. Mas quando comparamos 2013 a 2017, vemos que o valor do ticket médio sofreu redução de 19% mas o público médio aumentou apenas 6%. Ou seja, não dá para garantir que preços menores signifiquem mais público.

Fazendo uma análise de 2018, no Campeonato Carioca o Flamengo teve público médio de 9.439 pagantes, com ticket médio de R$ 31,00 (no Brasileiro de 2017, a média foi de 14.680 para R$ 47,60 de ticket médio). Ou seja, mesmo com ingressos bem mais baratos, o público não compareceu. “Ah, mas era o Campeonato Carioca”. Torcedor que acompanha seu time e quer vê-lo de perto não deveria escolher partida. Oferta e demanda. Um minuto numa rede de TV com alcance de 30 pontos no ibope é substancialmente maior que o de outra que dá 1 ponto. Mesmo que a TV de 1 ponto tenha uma programação muito mais qualificada.

Para finalizar o tema, volto ao início do artigo. Não dá para “fulanizar” a discussão sobre preço tratando apenas de Flamengo e Corinthians. Parece um tanto pessoal esta questão, quando na prática o futebol, se é um “ativo do povo”, precisa ser tratado, avaliado e questionado de maneira consolidada. De qualquer maneira, como já citei, o ideal é buscar um equilíbrio, sem criar celeumas e desgastes, mas buscando soluções que atendam a todas as características de uma partida de futebol.