
Créditos da imagem: Oscar del Pozo / AFP
Um grande time começa com um grande goleiro – é sabido. Passa por um grande organizador e termina com um matador. Fica muito melhor quando o organizador é também matador. Objeto de desejo de todos, mas joia rara que poucos podem ter.
Sorte nossa que o baixinho Lionel Messi (1m70) não fala muito, parece ser tímido, mandou-se da Argentina quando tinha apenas 13 anos e, até, já andou dizendo que nunca mais voltaria ao país, por não ter recebido as atenções médicas que necessitava na infância. Fosse o inverso, e não daria para suportar os hermanos, que há muito teriam “derrubado o templo de dios Maradona”, para erguer uma catedral a São Lionel.
E cantariam tangos e milongas garantindo que Messi é muito melhor do que foi Pelé. Se hoje eles brigam para provar – vale rir – que Maradona superou o filho de Dona Celeste e Dondinho, dando de ombros para tudo que ele fez e conquistou – Mundiais, recorde de gols – até para o título de Rei, dado pelos franceses e reafirmado por todas as nações, garantido que derrubariam o Vaticano, com ou sem Francisco no trono papal, para passar a coroa a Messi.
E justificariam com números bem mais expressivos que os de Maradona, é necessário concordar. Não para merecer comparação com Pelé – não se compara divindades com humanos -, mas com Diego. Lionel Messi já passou dos 500 gols defendendo o Barcelona – marca alcançada domingo passado contra o Real Madrid. E mais 58 pela seleção argentina. Maradona não chegou a 400, defendendo vários clubes, e 34 com a nacional.
Grande parte dos gols marcados por Messi foram em torneios de alto nível – como a Liga dos Campeões. Messi joga e comanda o Barcelona, há anos entre os melhores times do mundo. E está sempre recebendo o título de melhor jogador do mundo, ou entre os indicados. Maradona ficou apenas dois anos no time catalão – 1982-84 – sendo logo despachado para o Napoli. Messi completa 30 anos em 24 de junho próximo. Tem pelo menos mais cinco para jogar em alto nível e passar bem dos 558 gols. Nunca alcançará Pelé, mas poderá dizer que não armou para chegar aos mil jogando de brincadeira, como fez Túlio e, de certa forma, Romário.
Tudo bem, dirão que ele ganhou tudo, menos Mundial. E que Maradona tem um como protagonista. Até justificarão o gol contra a Inglaterra, na Copa de 1986, no México, feito com a mão, como fez outra dia Casagrande, justificando (?) que eram outros tempos, quando o papo era sobre fair play.
Futebol é jogo coletivo. São 11 em campo, um dependendo do outro. A maioria dos grandes craques – Puskas, Cruyff , Zizinho, Zico, Falcão, e tantos mais, não deram a volta olímpica. Em contrapartida, eméritos pernas-de-pau ostentam esse título. Dispensável citar alguns, que vivem por aqui e batem a mão no peito.
Cristiano Ronaldo, grande artilheiro, sempre na parada, brigando com Messi pelo título de melhor do mundo, dificilmente também será campeão mundial. Mais difícil para ele que para Messi. Em uma comparação entre os dois, o baixinho também leva boa vantagem. Em títulos e na arte de jogar. Cristiano (1m85, tem mais de 600 gols, sendo 71 pela seleção portuguesa é dois anos mais velho que o argentino).
Cristiano, como foi Romário, é um grande artilheiro. Preciso nas conclusões. Um time não vive sem um grande matador. Mas estará mais bem servido se tiver um matador que também seja organizador, trabalhe para ele e para os companheiros. Sirva e conclua. Não viva na dependência do que, de forma horrível, chamam de garçom.
Messi é esse jogador. Arruma o time, serve os companheiros, sabendo da importância do jogo coletivo, dita o ritmo e decide. Os números não mentem. E quem assiste aos jogos do Barcelona enxerga o resto. Tudo, em silêncio, sem cavar faltas, sem fugir dos caneludos, raramente reclamando, só com gestos comedidos. Joga com a cabeça, os pés e não com a boca. Desconhece ou despreza o marketing.
Nem sei como deixou crescer a barba e tatuou os braços. Deve ser coisa do Neymar – que um dia poderá chegar lá.