
Créditos da imagem: Lee Smith – Reuters
O tiro que não saiu pela culatra – mas quase…
Depois de uma temporada longa, quanto mais esforço puder ser poupado numa escalada de sete jogos melhor, certo? Not exactly. Bélgica e Inglaterra que o digam. Decidiram estrear na Copa em plenas oitavas de final, após dois adversários fraquíssimos nas primeiras rodadas. Poderiam ter se enfrentado com suas equipes titulares (ou boa parte delas). Mesmo não dando tudo para evitar cartões e lesões, seria um upgrade técnico e tático suficiente para evitar o choque de competitividade que se veria a seguir. Decidiram pelo maior descanso possível. Por pouco não descansaram mais ainda.
Mesmo com o baixo nível de tunisianos e panamenhos, já havia erros que sugeriam um teste menos relaxante. Logo na estreia, o passeio ensolarado dos ingleses virou fog. Precisaram de um gol salvador de Kane para escapar do vexame contra a Tunísia. Depois, mais concentrados contra o horroroso Panamá (imaginem similares na Copa de 48 seleções…), voltaram a viajar na cerveja morna e permitiram o primeiro gol do adversário em mundiais. Os belgas não tiveram problema para abrir vantagem nos dois jogos, porém tomaram dois gols da Tunísia e deram outras oportunidades. Ir para a fase seguinte desse jeito, sem buscar correções em situação real de jogo, poderia trazer problemas. Os técnicos provavelmente sabiam disso, mas acreditaram que poderiam ser contornados e solucionados contra as equipes de um grupo mais fraco. Fé demais, em Copas, não cheira bem.
No começo da partida contra o Japão, a Bélgica até pareceu buscar a postura do Brasil contra o México, dando campo ao adversário para aproveitar os espaços. Mas, depois de meia hora, a estratégia não parecia tão intencional assim. As trocas de passes, impecáveis contra os patos da primeira fase, não seduziram os japoneses. A defesa, por sua vez, continuou com os mesmos buracos. De repente o jogo estava 2 a 0 para o Japão e o melhor futebol belga já estava fazendo as malas. Tiveram que mandar tudo às favas e apelar ao jogo aéreo (além da sorte) para empatar. Ainda assim, os japoneses seguiram desenvoltos, enquanto os belgas pareciam disputar o campeonato paulista. Uma defesa de Courtois e a vontade afoita do adversário deram a brecha para finalmente saírem do pesadelo. Mas acordaram sabendo que terão vestibular contra o Brasil depois de quase tomarem bomba no simulado. Haja macete.
Já advertida pelo que aconteceu com a Bélgica, a Inglaterra dava pinta de menos dramas contra a seleção colombiana. Até porque esta não tinha James Rodriguez, ficando dependente de eventual cabeçada do zagueiro Mina. Apenas Harry Kane jogava bola, mas a Colômbia não ameaçava e ainda facilitou as coisas com um pênalti. Em vantagem, o técnico Southgate fez jus a parte do sobrenome, tirou atacantes e armou um portão na própria área. O futebol prometido ficaria para as quartas. Só que a eventual cabeçada de Mina se “eventualizou”. A inventora do futebol teve que enfrentar seu calvário histórico – disputa de pênaltis. Os ingleses lotarão igrejas para entoar “Jerusalem” como agradecimento pelo milagre inédito. Mas Deus podia ter ficado ao menos um dia sem salvar a rainha. Lembrando que nem o Papa conseguiu Sua ajuda por muito tempo.
Belgas e ingleses sobreviveram, porém terão poucos dias e nenhum sparring qualificado para ajustar o que precisam. Claro que prever o passado é mais fácil. Claro que não há garantias de que, com seus titulares em campo no confronto da primeira fase, sairiam sem baixas indesejadas. Escolhas precisam ser feitas e todas trazem seus perigos embutidos. Contudo, também parece claro que não é uma boa ideia passar quase duas semanas rosetando, enquanto outros postulantes se acertam em campo. Todos entendemos de futebol menos do que imaginamos, mas por ora fico com a impressão de que, para ser campeão, suor ainda ganha de sombra e água fresca.