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No Ângulo | Futebol é preciso

Sobre a chatice de quem reclama da Geração Playstation

26/11/2017

Créditos da imagem: You Tube

Deixem a garotada em paz!

Os leitores sabem que sou são-paulino. Assim como meu pai. Evidentemente, ganhei camisa do time quando era pequeno, mas nunca fui obrigado a torcer pelo tricolor. Podia ter escolhido qualquer um. De qualquer país. Não ficaria de castigo. Lembro isso porque, vez ou outra, leio comentários ofensivos a crianças e adolescentes que, exercendo essa “coisa chata” de livre arbítrio, veem mais jogos de times estrangeiros que de brasileiros. Quando resolvem mesmo torcer para Real Madrid, Barcelona ou qualquer equipe sem feijoada e samba, sobra até para a suposta “frouxidão” dos pais. “Geração Playstation” e “cambadinha de Nutellas” são os carros-chefe de uma postura que só merece dois adjetivos: babaca e covarde.

É fácil dizer que, “no meu tempo”, não seria assim. Quando estes marmanjos recalcados tinham a idade destas crianças, futebol estrangeiro na TV se resumia a um jogo do campeonato italiano por domingo. Hoje é possível assistir, até pela internet, todas as partidas dos principais clubes europeus. Maradona tinha uns vinte jogos televisionados por ano. Messi tem mais de cinquenta. Não é de espantar que mal havia um fã-clube do Napoli, enquanto hoje sobram torcidas do Barcelona nas redes sociais. Como se não bastasse, agora as notícias sobre futebol estrangeiro ocupam o mesmo espaço que as de brasileiros na internet, que é onde as pessoas se informam. Ficar ouvindo programa de rádio, com medalhões repetindo clichês sobre os times daqui? Só pra quem estiver dirigindo (o que, obviamente, exclui crianças e adolescentes) ou for masoquista pra ouvir tanta besteira repetida.

Com exposição idêntica, o futebol europeu desta década tem todas as armas para roubar a atenção. Conta com jogadores e partidas melhores. Era oooooutro cenário nos anos 1980. Com dois estrangeiros por time do Velho Continente, faltava espaço para que todos os grandes jogadores estivessem lá, ao mesmo tempo. Portanto, não era absurdo que um jogo entre São Paulo e XV de Jaú (especialmente se fossem os menudos do Morumbi) fosse muito melhor que Milan e Torino. Craques como Careca, Müller, Romário e Bebeto jogaram anos seguidos no Brasil, antes de encontrarem espaço na Europa. Não se trata de ser saudosista, pois havia ainda mais bagunça que hoje (perto do que aconteceu no Brasileirão de 1986, a CBF de hoje parece até boa). O fato é que, comparativamente e com contras e tudo, havia melhor material humano para produzir espetáculos que cativassem adultos e petizada.

Infelizmente, um lado evoluiu a passos largos e o outro a rastejar de tartaruga. A Copa dos Campeões virou Liga e referência de jogo bem feito, ao contrário do torneio em que o “legal” é ver torcida jogando urina na outra, jogador brigando pra mostrar raça e chutão pra tudo quanto é lado, porque “isso é Libertadores”. E o pior de tudo: graças ao fuso horário, os jogos da Europa acontecem antes. Aí o moleque vê uma partida mais movimentada, com expectativa de grandes lances, para depois se deparar com a realidade sul-americana e nacional. É como colocar o card preliminar depois do evento principal. Por mais que não queira deixar o paizão chateado, o interesse cai. Não é má vontade, assim como não era má vontade quando esse adulto, há trinta anos, preferia um cartucho do Atari a um peão. Vejam por outro ângulo: pelo menos o garoto também gosta de futebol. Nem tudo foi perdido.

No lugar de praticar um ridículo bullying de quarentões, por que não começar a assistir os jogos do Barça ou do Real com seu filho? Talvez assim, com esta empatia, ele também tope dar uma forcinha ao time paterno – inclusive no estádio. Se der certo, pode ter certeza de que o sacrifício dele estará sendo muito maior que o seu – e não me refiro a jogar Atari no lugar de Playstation…

PS: eu jogava Intellivision.