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No Ângulo | Futebol é preciso

Só resta um tango argentino?

06/09/2017

Créditos da imagem: ESPN FC

A seleção argentina está cada vez mais perto de ficar fora da Copa do Mundo, coisa que não acontece desde 1970. Ironicamente, é contra o Peru, responsável pela ausência naquela edição, que fará um jogo de sobrevivência. É intrigante como um país com jogadores talentosos, incluindo o melhor do mundo, simplesmente não consegue montar um time. Vou tentar, aqui do Brasil, enumerar as possíveis razões para o vexame que se avizinha:

1 – pragmatismo dos técnicos locais – os melhores técnicos argentinos pouco ou nada trabalharam na Argentina. O futebol doméstico esteve sob os cuidados (?) de treinadores pragmáticos. Pragmatismo, em termos de América do Sul, é encontrar atalhos para ganhar que dispensem a própria prática do futebol. O maior prejudicado foi o meio-campo, antes símbolo do toco y me voy. Os armadores desapareceram, tal como ocorreu no Brasil após os seguidos triunfos de nossos treinadores pragmáticos – em especial Muricy Ramalho. Para contornar isso, Sampaoli tentou recuar Messi, mas a escolha custou seu poder de finalização.

2 – futebol doméstico sofrível – um país onde Centurión é considerado grande jogador só pode estar com sérios problemas em seu esporte principal. Nem mesmo o pragmatismo tático explica como pode haver tanta falta de fundamentos em expoentes valorizados. O centroavante Calleri, ainda querido pelos tricolores que repudiam Centurión, não sabe passar uma bola e tropeça sempre que sai da área. Não foi por menos que acabou escorraçado do West Ham, em que Tevez foi ídolo.

3 – peso da camisa – não sou muito fã deste culto ao sobrenatural, mas é fato incontroverso que diversos jogadores consagrados em clubes europeus não jogam absolutamente nada pela seleção, a ponto de nem a mediocridade tática e as lacunas em outras posições explicarem a nulidade total. Tudo bem falar que o Messi do Barcelona é muito mais expressivo, mas ao menos o da seleção produz com destaque. Outros não conseguem sequer ser coadjuvantes decentes. Além de Aguero, Higuaín e Di Maria, o jovem Dybala entrou para o rol dos irreconhecíveis.

4 – imprensa insana – se ter um Galvão Bueno bipolar (uma hora tinha que ser futebol espetáculo, outra time de guerreiros) já atrapalhou as idas e vindas da seleção brasileira pós-2002, imaginem ter dezenas dele na mídia. O desespero por trinta anos sem uma Copa e mais de vinte sem sequer um título continental cria um novo regente da histeria por temporada.

5 – Maradona – ter vencido uma Copa com a maior performance individual de um atleta gerou efeitos colaterais para todos os camisas 10 que vieram depois. Não interessa que, em todas as outras competições (incluindo a Copa anterior), Maradona não fez milagres (salvo nas oitavas de 1990). Muito menos que o pibe conseguiu ser tudo aquilo graças a uma equipe muito bem montada e com ótimos parceiros. Ou os sucessores levam qualquer catado ao título, ou não prestam. Nem Messi, superior a Maradona em clubes e jogando em altíssimo nível por muito mais tempo, escapa. Para completar o drama, o ex-jogador fala mais besteiras que Pelé, esteja ou não se referindo a futebol.

6 – falta de um 7 a 1 – a despeito da negação inicial, a médio prazo o desastre do Mineirão está fazendo com que comecem a ressurgir jogadores em posições esquecidas no Brasil. Além disso, Tite foi escolhido com mais tempo para organizar uma seleção em situação desesperadora. Já o vice-campeonato de 2014 foi enganoso para uma seleção no estilo “chutão pra frente e o Messi que se vire” – a qual, não por acaso, sequer fez um gol em três finais seguidas.

Neste cenário, a Argentina pode até escapar do desastre supremo, mas será uma imensa surpresa se quebrar o tabu na Rússia. Sampaoli foi contratado tarde demais e, além disso, chegou tentando agradar a turba histérica, ávida por chances a jogadores atuando no país. Para tanto, abriu mão de medalhões e convocou pernas-de-pau com iniciativa – o que é muito pior que pernas-de-pau omissos. A manutenção de Mascherano como dono do time também atrapalha. Contra o Uruguai, sem o volante-zagueiro, a equipe foi bem mais lúcida. Muitas vezes, ter a coragem de reconhecer o fim de um ciclo antes da Copa é a chave da vitória. Felipão acertou em cheio deixando Romário de fora em 2002. A Espanha errou feio ao insistir com Xavi trotando em 2014. Se é para chegar repetindo o más de lo mismo, o novo treinador deveria ter ficado no Sevilla.

Enfim, a coisa está tão feia para os vizinhos que até Galvão é capaz de esquecer “como é booooom ganhar da Argentina, amiiiigo!”…