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No Ângulo | Futebol é preciso

Se vencer o Brasileiro, o Palmeiras será eneacampeão? Ou o Flamengo, hepta? Polêmica à vista

04/11/2016

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Os dois principais concorrentes ao título brasileiro de 2016, Palmeiras e Flamengo, deverão reacender uma polêmica já antiga: o reconhecimento, pela CBF, das Taças Brasil (59 a 68) e do Roberto Gomes Pedrosa (67 a 70), o Robertão, como títulos nacionais. Além da decisão de considerar Flamengo e Sport os campeões de 1987.

Antes de aprofundar a polêmica, façamos um resumo da história. Até o final dos anos 50, o Brasil não tinha um torneio nacional de clubes. Foi com a chegada de João Havelange à presidência da então CBD (em janeiro de 58), que se iniciou a discussão de organizar esta competição. Assim, foi criada a Taça Brasil, disputada entre 59 e 68. Eram campeonatos restritos por um longo tempo a times de menor expressão e que ganhavam a participação dos grandes, principalmente os do Sudeste, nas fases semifinal e final. Foram vencedores: Santos (1961, 1962, 1963, 1964 e 1965), Palmeiras (1960 e 1967), Botafogo (1968), Cruzeiro (1966) e Bahia (1959).

Para se ter uma ideia da fragilidade da Taça Brasil, Santos e Palmeiras, que seriam representantes de São Paulo em 1968, simplesmente abriram mão de participar.

Em 1967, o Torneio Rio-São Paulo, sob o nome de Roberto Gomes Pedrosa, foi ampliado com a participação dos principais times de outros Estados. Foi a primeira organização de um campeonato com os principais centros, muito parecido com o que temos hoje. O Robertão teve quatro temporadas: 67 (Palmeiras campeão), 68 (Santos), 69 (Palmeiras) e 70 (Fluminense).

Em 1971, foi lançado o atual Brasileiro, chamado inicialmente de Primeiro Campeonato Nacional de Clubes. Até por conta de o Governo Militar pregar a integração de Norte a Sul (ou do Oiapoque ao Chuí), o torneio passou a ser considerado a fundação de uma competição representativa de todo o país.

Conceito que perdurou por décadas, até que, em 2010, a CBF decidiu considerar campeões brasileiros todos os vencedores das Taça Brasil e do Robertão. Assim, tivemos casos estranhos, como o Palmeiras bicampeão brasileiro em apenas um ano (1967) ou dois campeões nacionais em 1968 (Santos e Botafogo).

Em 1987, a situação foi diferente. A CBF não conseguia conter a crescente insatisfação dos grandes times, organizados no Clube dos 13, e nem tinha condições de fazer um campeonato nacional com 40 equipes, como era previsto. Assim, houve o racha. O Clube dos 13 organizou a Copa União (chamado de módulo verde), com seus fundadores (Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro, Cruzeiro e Bahia) e três convidados: Coritiba, Santa Cruz e Goiás. A CBF realizou uma competição própria (módulo amarelo) com outras 16 equipes.

Para tentar valorizar seu torneio, a CBF propôs um quadrangular entre os dois primeiros colocados em cada módulo para definir o campeão brasileiro. Eurico Miranda, que representava o Clube dos 13 na reunião, aceitou. Mas o Flamengo encabeçou um movimento contra a ideia. Assim, Flamengo e Inter, campeão e vice do módulo verde, se recusaram a enfrentar Sport e Guarani, vencedores do amarelo. Resultado: a CBF reconheceu como campeão brasileiro o Sport, que representou o país, ao lado do Guarani, na Libertadores de 1988.

Em 2011, a CBF declarou Flamengo e Sport campeões brasileiros de 1987. E deu início ao litígio entre são-paulinos e flamenguistas pela posse da “Taça das Bolinhas”, que deveria ser entregue em definitivo ao primeiro pentacampeão nacional. O Flamengo considera que atingiu a marca em 1992. O São Paulo, que presidia o Clube dos 13 em 87, contesta. E a pendenga ainda continua.

Perdoem o texto longo, mas achei importante dar uma passada na história que muitos ainda não conhecem por completo. E aproveito para dar meu modesto pitaco. Acho que os Roberto Gomes Pedrosa têm que ser considerados títulos brasileiros, por terem sido os primeiros torneios de abrangência nacional. As Taças Brasil não. Foram competições esvaziadas em que os grandes disputavam no máximo quatro partidas.

Sobre a Copa União, a questão política deve dar lugar à obviedade técnica. Os campeonatos nacionais reúnem as principais equipes do país. Em 87, elas estavam no torneio do Clube dos 13, vencido pelo Flamengo.

Portanto, considero que, se o título de 2016 ficar entre Palmeiras e Flamengo (como tudo indica – com favoritismo disparado do time paulista), teremos o primeiro heptacampeão nacional. Mas esta velha discussão certamente voltará para animar as rodinhas de torcedores de futebol.