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No Ângulo | Futebol é preciso

São Paulo na Série B? Eu abandono!

04/08/2017

Créditos da imagem: Revista Exame

EU VOU TE ABANDONAR!

Meu nome é Gustavo e não sou um alcoólatra. O que não consigo largar é jogo do São Paulo. Até viajando procuro um jeito de assistir, a ponto de acordar de madrugada e torcer pelo time – e pelo wi-fi do hotel. Por conta desta paixão, há quinze anos modero um fórum dedicado ao tricolor, em que o lema é torcer, porém sem distorcer. Procuramos debater o que acontece no clube e no futebol, sem populismos pra ganhar dinheiro em cima do time – pelo contrário, já que pagamos pra não termos rabo preso com ninguém. Mais que isso: defendemos que ninguém seja considerado menos são-paulino por não ir ao estádio ou não se submeter a patrulhamentos, especialmente daqueles que veem crítica como traição. Melhor ser chamado de corneta que de hiena.

Neste contexto, já em 2010 via como imperioso que o clube superasse o “juvecentrismo” – a crença de que Juvenal Juvêncio era o parâmetro absoluto na arte de entender o futebol. Como mencionei em outra coluna, nem o tricampeonato de 2008 escondia que alguns conceitos estavam superados. Mas, em vez do espaço ao novo, veio o golpe. Uma mudança estatutária que, tal como o Superman do primeiro filme (aquele dos anos 70), fez o mundo girar ao contrário para permitir um “segundo mandato” que, obviamente, era o terceiro. Imaginei que são-paulinos ilustres e jornalistas fossem desmascarar a farsa. Quebrei a cara. Gente que hoje se rebela, como Abílio Diniz, fez que não viu nada de errado. Um jornalista (infelizmente, ex-moderador do nosso fórum) foi além: estabeleceu que o golpe era um “mal necessário”.

A torcida comprou a péssima ideia. Achou que a falta de títulos era “uma fase” e que Juvenal logo recuperaria o olho clinico. Os anos passaram, a “fase” não. No máximo, uma medíocre Sulamericana, que só serviu para um ridículo “el campeón volvió”. Tanto que, no ano seguinte, veio a primeira ameaça real de rebaixamento. Mas havia esperanças, uma vez que o mandato maldito enfim se encerrara. Pois a esperança foi a primeira a morrer. Carlos Miguel Aidar, idealizador da manobra calhorda que reelegeu Juvenal, foi eleito com tropa de choque da TTI e tudo. No lugar de renovação, o traíra dos traíras. Tão traíra que, sob o pretexto de moralizar, passou a perna no ex-aliado. Com ele não houve risco de rebaixamento, mas sobraram confusão e negócios cada vez mais estranhos, culminando com o “Jack” das comissões e o caso Maidana – que só não rendeu punições porque, afinal, CBF é Brasil sem Lava Jato.

Caiu Aidar (literalmente) e, no lugar de um rumo distinto, voltou o juvencentrismo – curiosamente aumentado com o falecimento do mestre. Leco, preterido tanto no golpe quanto na escolha de Aidar como sucessor de JJ, mostrou não ter mágoa nenhuma e manteve a turma no poder. Com uma diferença: tal como na desastrosa passagem com MPG, abriu o cofre loucamente e precisou vender meio mundo para não estourar a dívida. Contou, é claro, com os jornalistas chapa branca para divulgar positivamente suas pedaladas orçamentárias. Assim foi reeleito. Assim, pela segunda vez seguida em sua presidência, o São Paulo se vê às voltas com o Z4. E há quem ainda fale em “soberano”, pense ser só “uma fase” e emende com “time grande não cai”…

Este certamente não é meu caso. Além do que faço no aludido fórum, participei de um dos poucos grupos que não aceitaram o terceiro mandato, o Contragolpe Tricolor. Procurei divulgar textos para abrir os olhos do torcedor, mesmo sabendo que seria chamado de corneteiro, corintiano e outras imbecilidades. Enquanto colegas de torcida se agonizam, estou tranquilo por saber que fiz e faço a minha parte. Tranquilo o suficiente para declarar que, caso o São Paulo seja rebaixado, não o acompanharei na segunda divisão. Como se diz hoje em dia, esse destino não me representa.

O São Paulo não tem o direito de cair e esperar solidariedade de quem não compactuou com sua autodestruição. O Morumbi não desabou. Não caiu (toc, toc, toc) nenhum avião com o time à bordo. Se vier o pior, será unicamente por conta de sua incompetência crônica e pela omissão de muitos perante a mesma. Não faltaram avisos. Aliás, se futebol e Justiça andassem de mãos dadas, o tricolor já teria sentido o gosto da queda. É muita falta de autocrítica e até de caráter, fora a soberba tradicional, para sair impune. Mas, se continuarem dando linha, um dia o rebaixamento virá. E, quando vier, não contem comigo para se reerguer. Torcer pelo SPFC na primeira divisão já é um desgosto com esta corja no comando. Na segunda, com o perdão do termo, seria sacanagem.

Se o leitor também não aceitou estas palhaçadas desde o começo, espero que se sinta encorajado a se juntar ao abandono, sem medo de patrulhas. Não se trata de deixar de ser são-paulino, e sim de lembrar que a vida precisa ser mais que um time de futebol. Um mínimo de amor próprio é necessário. Por outro lado, se você é um dos que acharam que era só “uma fase”, não se atreva a fazer o mesmo. Cúmplice também cumpre pena.

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