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No Ângulo | Futebol é preciso

Santos, CBF, e o jogo de interesses do futebol brasileiro

23/05/2016

Créditos da imagem: Portal Terra/Charge de Mário Alberto

Respaldado pela Lei Pelé, o Santos, maior prejudicado com a convocação da Seleção Brasileira para a Copa América, poderia (e deveria) exigir o pagamento dos encargos previstos nos contratos de trabalho de Lucas Lima e Gabigol pela Confederação Brasileira de Futebol durante o período de ausência de seus jogadores. No entanto, “misteriosamente”, não o faz

Está lá, no artigo 41, §1º, da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998, o qual transcrevo ipsis litteris:

Art. 41. A participação de atletas profissionais em seleções será estabelecida na forma como acordarem a entidade de administração convocante e a entidade de prática desportiva cedente.

§ 1o A entidade convocadora indenizará a cedente dos encargos previstos no contrato de trabalho, pelo período em que durar a convocação do atleta, sem prejuízo de eventuais ajustes celebrados entre este e a entidade convocadora. (grifei)

Traduzindo o “juridiquês”, o texto legal garante ao Santos que ele chegue na CBF com um discurso mais ou menos nessa linha: “Amigos, muito boa a convocação, ficamos lisonjeados, mas nós só liberaremos os nossos atletas se vocês arcarem com o prejuízo material (já que o esportivo, com esse calendário, parece inevitável) que teremos. É pegar ou largar”.

Mas não, o que acontece é um pedido de ressarcimento “para inglês ver” feito pelos dirigentes santistas, na figura do seu presidente, Modesto Roma Júnior, que logo é rebatido pelo secretário-geral da CBF, Walter Feldman, este que, de duas uma: ou é cínico ao dizer que o clube também ganha com a valorização de seus jogadores, ou é míope, por não enxergar que essa tal valorização – que de fato ocorre – só atende aos interesses do clube em curto prazo, e só faz alimentar um sistema falido do futebol brasileiro.

E isso não é privilégio do Santos. Trato do clube da Baixada nestas linhas por entender que sem os melhores jogadores de seu elenco (vale lembrar que Ricardo Oliveira também tinha sido convocado e só foi cortado por lesão), o Santos praticamente joga fora qualquer chance de título no Campeonato Brasileiro. E, naturalmente, com isso perde dinheiro e entra numa ciranda perigosa de questionamentos que pode acabar mal até para Dorival Júnior (que nada tem com isso e vem fazendo um trabalho formidável à frente do clube).

No ano passado, conforme aqui informou o mestre José Maria de Aquino, o São Paulo entrou com uma ação na Justiça para cobrar os salários de jogadores convocados para a Seleção Brasileira desde 1997. O valor do pedido girava em torno de 18 milhões de reais. Só que, também “misteriosamente”, o clube retirou a ação – atitude elogiada e tratada como “elegante e compreensiva” (aham) por Feldman – e com isso perdeu uma excelente oportunidade de ser diferente e de lutar pelos seus interesses.

Oportunidade esta que o financeiramente mal das pernas Santos (como cirurgicamente explicitou Amir Somoggi em coluna para o LANCE!)  também está deixando passar. Sabe-se lá (embora não seja difícil imaginar) em nome de quê ou de quem.

Uma eventual postura combativa do clube poderia abrir um precedente deveras importante para o nosso futebol. E forçar a CBF a rever muitos pontos da sua (não) administração.

Ah, Santos, por que não ages como um tubarão?

E segue o jogo.