
Créditos da imagem: Gazeta Esportiva
“Vou colocar o time do Santos para voar”
O egocentrismo de Luxemburgo faz com que muito do que fala não seja levado a sério como merecia. É o caso da alegação de que todos os esquemas modernos são variações do 4-4-2. Talvez seu vocabulário não tenha sido preciso, mas o fato é que realmente derivaram do 4-4-2. Vejamos:
- o 4-2-3-1 surgiu de duas formas. No jeito europeu de jogar, com uma linha de 4 no meio-campo, um dos dois atacantes enfiados recuou, enquanto os dois meias abertos avançaram. Já no Brasil, o terceiro volante (muito utilizado por Luxemburgo) abriu para um dos lados e o segundo atacante recuou e abriu para o outro. Vide a seleção de 2010, em que Elano foi para a direita e Robinho para a esquerda, com Kaká centralizado. O 4-4-2 com 3 volantes era um 4-2-3-1 disfarçado.
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mais adiante, um dos volantes do 4-2-3-1 deu lugar a outro meio-campista, surgindo o 4-1-4-1.
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quando os jogadores abertos deste esquema mudaram de meias-atacantes para atacantes de origem, vimos o 4-3-3. Bem diferente do 4-3-3 do passado, mesmo porque os pontas entram mais na área e não raro jogam de “pé trocado” – destro na esquerda e canhoto na direita.
Portanto, não é desprovida de fundamento a análise de Vanderlei Luxemburgo. O que pode soar como recalque, por força de sua fama, é também uma visão interessante da linha que levou a estas formas de jogar. A questão é: por que os trabalhos de Luxemburgo não conseguem executar as formas derivadas do 4-4-2 que ele viu? Mais: por que acreditar que ele pode conseguir daqui pra frente?
Penso que o grande entrave não foi o pôquer, nem a idade. O erro de Vanderlei é aceitar que a evolução seja imposta de fora para dentro. Como profissional sui generis que é, deveria ele próprio ditar a evolução do que treina. Ao tomar como objetivo chegar ao produto de outros, deixou de acreditar em si mesmo e, assim, sabotou-se.
Situação bem diferente, e vitoriosa, pode vir quando tiver carta branca e suporte para cuidar de seu laboratório com suas próprias experiências. Foi assim nos anos 1980, quando a liberdade plena criou o campeão Bragantino. Ou em 1993, quando chegou para salvar os milhões da Parmalat. Nada de “faça isso ou aquilo”. “Faça o que achar melhor” é o que dá certo.
Luxemburgo ainda tem saúde e metas a atingir. Lembra, de certa forma, a situação de Telê Santana em 1990. Eram tempos em que treinadores como ele eram tidos como acabados, enquanto novatos como Nelsinho e o próprio Vanderlei tinham holofotes. O São Paulo, em mau momento, resolveu dar uma chance. Acertou em cheio, mas porque decidiu acreditar em seu talento, sem imposições. Com pessoas únicas não há outro meio de funcionar.
Por isso acredito que a História de conquistas de Luxemburgo não acabou oficialmente. Com o enfoque certo, tanto dos dirigentes quanto dele mesmo, o grande momento de sua carreira ainda pode estar para acontecer.
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– Seja bem-vindo (desde que no clube dos outros e não no meu), Vanderlei!