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No Ângulo | Futebol é preciso

Osorio, o Médico e o Monstro

16/09/2015

Créditos da imagem: Montagem/No Ângulo

Inspirado pela recente coluna do mestre José Maria de Aquino, resolvi externar algumas impressões que tenho a respeito do trabalho do hoje técnico do São Paulo, o colombiano Juan Carlos Osorio.

Para tanto, fiz questão de aguardar um bom momento da equipe (classificada para as quartas de final da Copa do Brasil e em 5º lugar no Campeonato Brasileiro), a fim de não soar precipitado, oportunista ou, até mesmo, xenofóbico (!).

Bom, comecemos analisando o desempenho do tricolor paulista no Brasileirão. O São Paulo está com a mesma pontuação do Flamengo (41), hoje o 4º colocado pelos critérios de desempate. Ou seja, parece razoável pensar que a classificação para a Libertadores é algo muito palpável e realizável e o time está cumprindo a sua missão, correto? Ponderemos!

Sem querer desqualificar o campeonato – que, pelo contrário, arbitragens ruins à parte, está empolgante e com ótimos jogos -, entendo que exceção feita ao Corinthians, Atlético-MG e Grêmio, nenhum outro time possui uma campanha linear e digna de G4 na atual temporada. Nem mesmo o Santos e o Flamengo, que hoje têm brilhado, mas que em um passado não muito distante penavam na competição cada qual por motivos distintos. O campeonato está tão esquisito que até o Internacional e o Palmeiras, ambos com desempenho abaixo da crítica em seus jogos, estão hoje muito próximos (4 e 3 pontos, respectivamente) da tal “zona da Libertadores”. E o São Paulo, em que pese a boa colocação na tabela de classificação (circunstancial, mais pela incompetência de seus adversários do que por méritos próprios), não consegue ser regular. Ora joga muito bem e chega a impressionar, como na última rodada, quando derrotou o Grêmio fora de casa por 2 x 1, ora parece um “catado” em campo, como na penúltima rodada, quando foi derrotado inapelavelmente por 3 x 0 pelo Santos.

Na Copa do Brasil, mais instabilidade. Após o vexame da histórica derrota para os reservas do Ceará em pleno Morumbi, a equipe conseguiu a virada que evitou danos ainda maiores e agora enfrentará o Vasco na próxima fase da competição.

De maneira que o clima de incerteza passa a tomar conta da torcida são-paulina. Afinal, qual time enfrentará a equipe carioca? E o restante do Brasileirão?

Acredito que algumas coisas ajudem a explicar (mas não justificam) tamanha instabilidade. A começar pela tão comentada – exageradamente, a meu ver – venda de jogadores. Vejamos: Denílson e Souza foram vendidos. Perdas relevantes, ok. Mas Rodrigo Caio e Wesley, seus potenciais substitutos, não seriam titulares da maior parte das equipes do país? Quanto às demais saídas, respeito, mas não consigo concordar que Paulo Miranda, Tolói, Dória, Boschilia e Jonathan Cafu representem grande perda técnica ao elenco, embora seja inegável que essa debandada cause um clima de instabilidade e de “fim de feira” para os remanescentes, algo a ser tratado com muita sensibilidade pelo treinador.

No entanto, tomando como exemplo o líder do campeonato – o Corinthians -, que perdeu três titulares de peso da equipe logo nas primeiras rodadas (Fábio Santos, Sheik e Guerrero), além de seu “12º jogador”, Petros, acredito até que o time comandado por Tite tenha mais motivos para lamentar, diante do maior gabarito desses atletas se comparados aos da “barca tricolor”. Quanto às contusões, ambos padeceram do mesmo mal e em proporções parecidas. Se o São Paulo ficou boa parte dos jogos sem Rogério Ceni, Alan Kardec e Luís Fabiano, o Corinthians teve de se virar em algumas rodadas sem Cássio, Fagner, Felipe, Uendel, Bruno Henrique, Luciano e, mais recentemente, Rildo.

O que me leva a crer que o problema do São Paulo talvez resida naquilo que muitas pessoas exaltem como uma qualidade, mas que, para mim, é um defeito da atual equipe: o tão elogiado por torcida e imprensa rodízio de atletas instituído por Osorio em seu elenco. Acredito que no Brasil – e mesmo na Europa – um time deve ter o seu “esqueleto” pronto para que o treinador possa, eventualmente, mexer em algumas peças, a fim de poupar “A” ou “B”. É assim com o Barcelona, com o Real Madrid e outros gigantes do Velho Continente. Mesmo o Cruzeiro bicampeão nacional de Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart quase sempre repetia os titulares em seus jogos. E o São Paulo não possui hoje essa “espinha dorsal”. Exceção feita a Rogério Ceni, Pato e talvez mais um ou outro, ninguém tem a titularidade garantida. Nem Ganso. Nem Michel Bastos. E é aí que reside o problema. Jogador sem confiança tende a render menos, a arriscar menos e jogar com menos felicidade. O próprio Alexandre Pato confirma esse entendimento, já que tão somente após as contusões de Alan Kardec e Luís Fabiano se firmou e se transformou no “cara” do time.

Afora isso, não concordo com quem critica o elenco comandado pelo treinador colombiano. A verdade é que bons nomes (que jogaram bem em outros times) não estão conseguindo desempenhar um bom futebol no São Paulo e isso é – também – responsabilidade do técnico. Afinal, um grupo com Rogério Ceni, Bruno, Breno, Carlinhos, Rodrigo Caio, Wesley, Ganso, Michel Bastos, Pato, Alan Kardec, Luís Fabiano e outros tem total condição de ser protagonista no futebol brasileiro. E o técnico, seja ele estrangeiro ou brasileiro, deve ter sim a sua parcela de cobrança nesse sentido.

Em outras palavras, me arrisco a dizer que se treinasse e insistisse em uma escalação, o São Paulo estaria em um estágio mais avançado na temporada e provavelmente apresentando um futebol mais consistente. Se não o fizer e não encontrar logo os seus titulares e “homens de confiança” dentro de campo, Osorio corre o risco de ter uma passagem fracassada por terras brasileiras, assim como foi com Diego Aguirre, pelo Internacional, que pecou justamente nesse aspecto.

Ainda há tempo. E o cenário ainda é favorável.

Assim como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do clássico literário “O Médico e o Monstro”, que ganhou vida nas telas do cinema com uma brilhante atuação de Spencer Tracy no papel do cientista que elabora uma fórmula e, ao bebê-la, revela o seu lado demoníaco e passa a conviver com essa dupla personalidade, o São Paulo parece ter o seu lado bom e o seu lado ruim. A conferir qual dará as cartas no restante da temporada.

E segue o jogo.