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No Ângulo | Futebol é preciso

Onde está o torcedor santista?

17/06/2016

Créditos da imagem: espn.uol.com.br

Primeiro gostaria de me apresentar: meu nome é Carlos Rigueiral, sou torcedor do Santos talvez desde antes de nascer, sou de uma família de santistas (pai, mãe, irmão, avós), frequento a Vila Belmiro desde que tenho 3 anos de idade, ou seja, antes de aprender a falar direito, eu já sabia cantar o hino do Santos.

No Santos fui mascote, fui torcedor organizado, fui conselheiro, conheci 11 estados brasileiros para assistir o time jogar e vi o Santos jogar em 6 países diferentes. Logo, posso dizer que conheço “um pouco” de Santos Futebol Clube.

Mas se tem uma coisa que eu não sei explicar é o porquê de o Santos ter uma média de público tão baixa e/ou o porquê de o seu torcedor não comparecer aos jogos, especialmente na Vila Belmiro.

Na vitória sobre o Sport (a terceira seguida no Brasileirão), pouco menos de 5 mil pagantes estiveram no estádio. E já havia sido assim contra o Internacional, na derrota por 1×0, quando a invencibilidade que já perdurava quase 1 ano caiu. E até mesmo na estreia em casa, contra o Coritiba, apenas 7 mil pessoas estiveram na Vila Belmiro.

Veja, juntando os públicos das três partidas (pouco menos de 17 mil pessoas), dá quase o mesmo que em um domingo de manhã esteve no Pacaembu, na vitória por 3×0 sobre o Botafogo.

Mas qual a razão?

Confesso não ter a resposta, mas farei algumas ponderações a seguir.

Sou de um tempo em que o Santos sofria, mas sofria mesmo. Ser santista era muito mais que uma questão de amor, era uma questão de personalidade, afinal, além do jejum de títulos, não havia muitas perspectivas e os rivais iam ganhando enquanto a gente só olhava. Minha lembrança de criança era de sempre ir à Vila Belmiro, da atmosfera que o estádio tinha, não sei, parecia que havia mais paixão do que acontece hoje em dia, a falta de títulos talvez fazia com que aqueles torcedores fossem mais apaixonados, iam ao estádio de teimosos.

Claro que havia públicos pequenos, lembro-me de ter ido a um Santos x Real Madrid, em 1996, oportunidade em que o Giovanni se despedia do clube, com menos de 2 mil pessoas na Vila (!). Isso mesmo, um jogo contra o poderoso Real Madrid, atual campeão da Champions League, na despedida de um ídolo santista, e não havia público praticamente.

Entendo que o torcedor santista aparentemente se acomodou e com o advento das redes sociais, passou a ser melhor e mais fácil ficar atrás de um computador comentando e falando sobre o jogo, do que realmente ir ao jogo, além de outros problemas.

É fato que a maior parte da torcida santista está fora de Santos. Para quem não conhece, Santos é uma cidade relativamente pequena, com pouco menos de 500 mil habitantes. Ou seja, muito menor do que a torcida do seu filho mais ilustre: o Santos Futebol Clube, que tem aproximadamente 6 milhões de torcedores espalhados pelo País (sendo que pesquisas apontam que cerca de 1 milhão desses torcedores vivem na Capital ou na Região Metropolitana).

Além do fato de ser uma cidade “pequena”, Santos possui hábitos de cidade pequena e muitas vezes provinciana – antes que me critiquem, sou nascido, criado e morador de Santos, amo a cidade e tenho muito orgulho de ser santista de nascimento e de arquibancada -, mas é algo a ser levado em conta.

Outros pontos: no último jogo, contra o Sport, estava 15 graus, o que para a cidade de Santos é quase uma nevasca. Além do mais, o horário do jogo, às 21 horas, em uma cidade de grande maioria população entre os 50 e 70 anos, faz grande diferença, já que Santos não é uma cidade com a noite pujante, é uma cidade claramente diurna.

Já os jovens da cidade parecem ter perdido o hábito de ir ao estádio. Lembro que na minha época de criança e adolescente, grande parte dos meninos da classe, ou da rua, ou das turmas de amigos, frequentava os estádios, talvez não em todos os jogos como eu fazia, mas muitos iam com uma boa frequência. Hoje, vejo que isso é muito mais raro.

Além disso, Santos é uma cidade que possui uma grande quantidade de bares, que são muito mais atrativos do que o estádio para essa nova geração, é muito mais “legal” assistir ao jogo no bar, vendo pela TV enquanto bebe uma cerveja do que ir ao estádio e assistir ao jogo às vezes sentado com a bunda na arquibancada gelada, ou sem cerveja.

O fato é que existem diversos motivos que fizeram o Santos se afastar de seu torcedor e o seu torcedor (principalmente o da Baixada) se afastar do Santos. Talvez seja a hora de o time bater asas, passar a jogar com mais regularidade em São Paulo, fazer do Pacaembu a sua casa de verdade, atrair e conquistar o mercado paulistano, aumentar a sua faixa de torcedores jovens em que ainda existe ainda um grande potencial de crescimento.

Quem sabe jogando fora de Santos o pessoal se dá conta de que tinha um grande espetáculo logo “ali na sua esquina” e passe a sentir falta. Para, quem sabe, em um eventual retorno, o clube possa voltar a atrair mais gente.

Afinal, não dizem que a gente só dá valor quando perde?

Pois bem, acho que é isso.