
Créditos da imagem: Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Não, não é a demissão de Dorival Jr. que vai fazer o Santos sair desta fase de turbulência. Atitude amadora tomada justamente por uma diretoria que tinha acertado no atacado, apesar de alguns erros no varejo, nos últimos anos. O time é bom, mas é inegável que o título paulista do ano passado e os vices da Copa do Brasil (2015) e do Brasileiro (2016) tiveram o dedo do treinador dispensado. A saída encontrada, diante das oscilações neste ano, foi a mais fácil, mas tenho dúvidas de que tenha sido a melhor.
Dorival tem sido a melhor face do Santos nos últimos tempos. Parece ligado ao time, mesmo tendo sido erroneamente demitido depois de enfrentar as birras de um mimado Neymar – episódio em que o craque foi criticado pelo próprio pai. Suportou e voltou ao clube. E não fez feio. Sabedor das dificuldades das equipes brasileiras, soube montar um time com as pratas caseiras recheadas por alguns medalhões.
Pois agora o clube entra em uma fase de necessária renovação, depois de cerca de dois anos de boa fase. Renato, um lorde do futebol, não tem mostrado a disposição que tinha recentemente. Ricardo Oliveira não tem sido mais o mesmo. Lucas Lima parece mais preocupado em resolver definitivamente sua conta bancária, com uma boa transferência, do que ser a referência maior do meio de campo. Alie-se a isso as contratações equivocadas, como a do zagueiro Cléber, e a tempestade está armada.
E quem demitiria o experiente comandante do navio em meio ao mau tempo? Com perplexidade, vimos que esta foi a opção do competente dirigente Modesto Roma Júnior. Diz a imprensa que ele não queria a saída do treinador, mas foi constrangido pela diretoria.
De qualquer forma, o Santos navegou contra a corrente. Basta ver o que o arquirrival Corinthians tem feito desde o rebaixamento em 2007. Formou uma escola de futebol iniciada por Mano Menezes e aperfeiçoada por Tite. O Corinthians tem uma cara graças aos dois. E ambos poderiam ter sido demitidos com eliminações ruins do time, como contra o Flamengo na Libertadores de 2010 (Mano) ou o episódio do Tolima (Tite). A diretoria, sabiamente, tratou de mantê-los e deu a volta por cima. Ambos deixaram o clube para dirigir a Seleção. A saída de Mano em 2014 deveu-se mais à saudade de Tite do que pela falta de resultados.
O vencedor futebol moderno troca a mágica de colocar novos treinadores pelo trabalho em sequência. Mesmo nos períodos difíceis. O Corinthians, depois de tentar Cristóvão Borges e Oswaldo Oliveira, percebeu que Fábio Carille, ex-auxiliar de Mano e Tite, poderia ser a solução. Afinal, sabia qual era o estilo de jogo que marcou o Corinthians nos últimos nove anos, fase mais vencedora do time. Dá chances às revelações, claro que muito por causa da crise financeira do clube, mas tem tido resultado.
O Santos não tem dinheiro para grandes contratações. Mas tem uma tradição única de revelar jovens craques. Quem seria melhor do que Dorival para fazer essa nova travessia? Será que um nome famoso do mercado conhece tanto o Santos para fazer este trabalho melhor que Dorival? O time tem tantos talentos para acreditar que outro nome fará um trabalho melhor imediatamente?
É inegável que Dorival foi o que deu mais condições, nos últimos tempos, para fazer com que jovens talentos se incorporassem ao time e atuassem como se fossem veteranos. Esse é o segredo do Santos. Quanto custaram ao clube as revelações de Pita, Juary, João Paulo, César Sampaio, Robinho, Diego, Alex, Neymar, Ganso, Zeca, entre outros? Certamente muito menos que a troca de técnicos em momentos de falta de segurança da diretoria.
No time que teve em Lula o técnico mais vencedor de sua história, de 1954 a 1966, época de grandes craques feitos em casa, é ruim essa precipitação de jogar para a torcida e não ter um planejamento sério.