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No Ângulo | Futebol é preciso

O que valem os regionais, esses torneios que perderam valor mas ainda movimentam torcedores?

03/05/2016

Créditos da imagem: otempo.com.br

Sou da época em que os campeonatos regionais eram o principal objetivo dos grandes clubes brasileiros. Nos anos 60 e parte dos 70, era comum poupar jogadores nos torneios nacionais e até na Libertadores para dar prioridade aos estaduais.

O grande Santos abriu mão de disputar a Libertadores em 1967 para se dedicar ao Paulista. Em 1966, os times brasileiros sequer disputaram o torneio sul-americano. Algo impensável hoje em dia.

Para se ter uma ideia da importância suprema dos estaduais, o tabu de 11 anos (de 57 a 68) do time santista sobre o Corinthians se deu exclusivamente no Paulistão: 22 partidas, 16 vitórias do Peixe e seis empates. Os corintianos ganharam quatro jogos contra o rival neste período: três (1958, 1960 e 1961) pelo Torneio Rio-São Paulo e um (1962) pela Taça São Paulo. Porém, o que valia mesmo era o Paulista, por isso foram 11 anos de supremacia santista. E ninguém duvida disso.

O jejum de títulos do Corinthians sempre foi marcado pela falta de Paulista. Ninguém cobrava uma conquista dos torneios interestaduais existentes à época. Nem o título do Rio-São Paulo de 1966, mambembe porque foi dividido entre quatro times (Corinthians, Santos, Vasco e Botafogo) por falta de datas para a disputa das semifinais, amenizou o sofrimento corintiano.

Com a consolidação do Brasileiro de clubes, em 1971, e os sucessos de times nacionais na Libertadores a partir da metade daquela década (Cruzeiro-76, Flamengo-81 e Grêmio-83), os regionais começaram a perder prestígio.

O golpe final foi o São Paulo bicampeão da América do Sul e do mundo em 92 e 93. Ali, o eixo do futebol brasileiro definitivamente mudou.

Hoje, os regionais são considerados meros torneios de preparação para a temporada. Servem para que os times ajustem seus elencos visando os maiores desafios do ano. Certo, mas até a página 2. Na verdade, quando se aproxima das decisões as torcidas em todo o país, principalmente nos grandes centros, torcem, sofrem com as derrotas, ironizam adversários quando ganham e fazem festa para a taça. E até técnicos perdem cargos por desempenho ruim nas competições domésticas – vide os casos de Oswaldo em 2015 no Palmeiras e de Deivid (foto) neste ano no Cruzeiro. Ainda assim, o sucesso pode pouco representar. Aconteceu com Doriva, campeão paulista pelo Ituano em 2014 e carioca no Vasco, em 2015. Hoje, está fora da elite do futebol.

É certo que no próximo final de semana (como já foi no último) torcedores de grandes times estarão nos estádios ou ligados na TV para torcer nas decisões. Se perdem, lamentam. Se vencem, gozam os adversários e comemoram o título com gosto.

Sem dar vagas para torneios importantes, dividindo espaço com concorrentes fortes como a Libertadores e a Copa do Brasil, os regionais têm poucas chances de recuperar prestígio.

A saída poderia ser a mudança na sua forma de disputa, valorizando uma fase classificatória ao longo do ano entre os times menores e culminando com regras semelhantes à da Copa do Mundo na entrada dos grandes, para uma disputa que ocupasse no máximo o primeiro trimestre do ano. Essa e outras ideias poderiam ser testadas.

O importante é que os regionais deixem de ser sinônimos de tempo perdido no início da temporada e passem a ser uma competição de menor duração e muito mais emoção.