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O presidente do Santos, Modesto Roma Jr, não foi nada original ao reclamar da arbitragem do jogo Internacional 2 x 1 Santos. Parafraseando Levir Culpi, disse que o “campeonato está manchado” por supostos erros do juiz na expulsão de Lucas Limas e nos cartões mostrados para Ricardo Oliveira e Victor Ferraz, o que tirou o trio do clássico contra o Corinthians.
Quando Levir fez esta acusação, no Brasileiro de 2015, se referia a erros que teriam sido cometidos em benefício do Corinthians, seu rival direto na corrida pelo título. O então técnico do Atlético Mineiro tentou ali fazer uma pressão para deixar a arbitragem e a CBF sob pressão dos torcedores e da mídia. Mesmo que ele tivesse razão nos erros apontados, o Corinthians ganhou o hexacampeonato com autoridade, incluindo um sonoro 3 x 0 sobre o Galo no estádio do Horto, no jogo considerado final antecipada do Brasileiro.
No caso de Modesto Roma Jr., porém, parece haver uma forçada de barra. Primeiro, porque o jogo era contra o Inter, um tricampeão brasileiro, time de grande prestígio, que amargava uma série longa de jogos sem vitórias e estava na lista da degola para a Série B. O resultado tirou o Inter das últimas colocações. Normalmente, a reclamação deveria ser contra um eventual favorecimento ao Colorado, afinal haveria razões de sobra para isso.
E Modesto realmente tocou nessa hipótese, ao dizer que o resultado favoreceu times que brigam para não cair. Mas resolveu ampliar o alcance de sua platitude: disse que o juiz tinha também o objetivo de interferir na briga do G4. Aí forçou a barra. O Brasileiro deste ano caminha cada vez mais para uma definição entre Palmeiras, Flamengo e Atlético Mineiro. São os três melhores times até agora e ninguém parece com muita possibilidade de se meter no meio do trio de líderes.
O Palmeiras lidera, com 46 pontos, à frente de Flamengo (46 e um jogo a mais) e Atlético (42). O Corinthians é o quarto, com 40, e se mantém no G4 mais pela gordura conquistada ainda na era Tite, e que vem sendo consumida com rapidez preocupante por Cristóvão Borges. O Santos está a quatro pontos do Corinthians e a dez do Palmeiras. Imaginar que se constrói um esquema para fazer o time corintiano, em queda de produção e reformulação, superar os três líderes é, como dizem jovens não tão jovens mais, “viajar na maionese”. Até em relação à briga por uma vaga na Libertadores, quando ainda faltam 45 pontos para cada time disputar, é exagerar nas teorias conspiratórias.
Os dirigentes já deveriam ter percebido que o Campeonato Brasileiro é o principal produto nacional no futebol. Movimenta milhões em direitos de transmissões, marketing, licenciamento, publicidade, transação de jogadores, venda de ingressos etc. É um jogo que não pode apenas ser correto, tem que parecer correto. Quando pairam dúvidas, há repercussões diretas na arrecadação, venda de ingressos e de pacotes de per-pay-view. Todos perdem. Além de acabar incentivando a violência dos vândalos infiltrados nas torcidas.
Pedir a cabeça de juízes, de diretores da arbitragem e acusar campeonato de “manchado” é coisa de amador, que não vê o prejuízo que pode causar a todos os participantes da competição-empreendimento, inclusive seu próprio clube.
É preciso que os dirigentes sejam mais inteligentes e atuantes. Há tempos, o futebol brasileiro padece com um STJD obsoleto, com um preparo precário de trios de arbitragens, com a falta de tecnologia para corrigir erros claros, com a divisão desigual de recursos dos campeonatos entre os clubes etc. Seria interessante que os dirigentes se mostrassem modernos e eficientes no enfrentamento destas questões e não arcaicos e falastrões com comportamentos que lembram a época da várzea.