
Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo
Entre todo o nosso histórico de problemas, o Brasil vive uma fase particularmente bizarra: a existência de uma “institucionalidade” praticamente virtual, que se tradicionalmente já é apartada do povo, agora chegou ao ponto de ser quase “inimiga da população”. E isso se repete tanto na política quanto no futebol.
Vivemos um cenário no país em que uma estrutura podre enfia “goela abaixo” de todos nós, situações e personagens sem a menor aprovação popular ou legitimidade. E nem procuram mais disfarçar.
Temos uma Presidente da República que simplesmente não pode mais aparecer em qualquer local público que se torna alvo de protestos, e mesmo pela TV é sufocada pelos frequentes panelaços. Agora, vive sitiada e fala somente rodeada por sua claque, além de que cada vez mais mostra se preocupar somente com os seus e ver todo o resto da sociedade como inimigo. Com a maior reprovação popular já medida na nossa história, ela foi capaz de nomear como Ministro de Estado um investigado pela Justiça, logo após as maiores manifestações populares já realizadas no país, que, entre outras coisas, se opunham justamente a isso. Acusada de ter sido eleita com dinheiro ilegal e uma campanha baseada em mentiras, sente-se no direito de apontar tudo e todos como golpistas, inclusive quando ela é a ré.
Ao mesmo tempo, temos uma CBF com presidentes rotativos, e um sistema de eleição que não permite qualquer alternativa decente. Os nomes mudam e nada acontece. Chegamos ao surrealismo de ter um presidente da CBF que simplesmente não viajava para o exterior depois que o FBI botou seu antecessor “em cana”. Antes, um então presidente disse, com todas as letras em uma entrevista, “O que as pessoas têm a ver com as contas da CBF? É uma entidade pri-va-da”. E esse mesmo sistema é estruturado com base nas nocivas Federações Estaduais, que mantém campeonatos inchados, deficitários, de baixo nível técnico e que não interessam a mais ninguém por cerca de 1/3 da temporada. Esses dirigentes – muitos deles há décadas no poder – fizeram o possível para boicotar a Primeira Liga, que é amplamente aprovada pela opinião pública, mas é uma competição sem nenhum interesse esportivo, porque a estrutura atual não permitia que ela alcançasse nada além disso no momento. Clubes super populares (entre eles o Flamengo, o mais popular) são perseguidos e sofrem retaliações de inúteis e parasitárias federações, a tal ponto que algumas torcidas precisaram protestar contra esse estado de coisas.
Temos na presidência da Câmara um deputado que quebrou o decoro parlamentar ao mentir durante uma audiência em CPI, negando possuir contas secretas na Suíça, posteriormente descobertas. É réu da Lava Jato e investigado em outros três inquéritos, além de ter um processo de cassação de mandato rodando em câmera lenta contra ele, sempre cheio de artimanhas e medidas protelatórias. Tornou-se praticamente um símbolo do político que, escorando-se em acordos escusos e manobras, vai protelando uma situação indigna.
No Senado, o presidente é um indivíduo que está simplesmente sob NOVE inquéritos, há muito tempo envolvido nos mais variados escândalos. Alvo de protestos e de abaixos-assinados gigantes, continua sempre em posição de destaque na política brasileira. Ao contrário de seu par na Câmara, que ao menos firma posição, nunca se sabe exatamente para onde vai e o que defende de fato. Dos mais claros casos de “coronel”, tendo inclusive emplacado seu filho como governador de estado.
No banco da Seleção temos um profissional que foi forjado como técnico de futebol já comandando a camisa mais prestigiosa do futebol mundial. Foi demitido após a eliminação da Copa de 2010 e, depois disso, só andou para trás na carreira. Entretanto, foi premiado com uma segunda oportunidade na Amarelinha, mesmo não gozando de nenhuma simpatia entre a torcida ou a mídia. Ao mesmo tempo, dizem que Guardiola de tempos em tempos sinaliza o desejo de comandar o escrete canarinho, e Tite coleciona títulos e admiradores, tornando-se uma unanimidade nacional que parece nunca ter vez nesta “CBF de outra dimensão”.
Se tradicionalmente nosso país e povo sempre sofreram com os interesses de uma pequena elite política, antes, em períodos democráticos (obviamente não incluo as ditaduras) havia o cuidado de se disfarçar, a preocupação com as massas e a opinião pública, ou ainda uma grande divisão de opiniões na sociedade. Hoje não, simplesmente se impõem sobre quase consensos da opinião pública brasileira e criam ministérios para entregar a quem der apoio político; definem limites de número de jogadores inscritos nos campeonatos estaduais para “obrigar” que os times não coloquem os juniores; barganham explicitamente por alguma vantagem política e, caso não atendidos, no dia seguinte mudam de opinião; convocam novatos com apenas 16 jogos profissionais para a Seleção e, após sua venda, nunca mais o chamam, etc. Há um descolamento cada vez maior, mais cínico e autoritário entre nossos comandos políticos e o “Brasil real”. Como chegamos a isso?
Parece que somos subjugados em nosso próprio país por uma “força maior”. Duzentos milhões de párias. Dentro ou fora de campo.