Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

Mauro Ramos de Oliveira, Canhoteiro, Idário e uma São Paulo que não volta mais

11/05/2016

Créditos da imagem: museudantu.org.br

Para fugir do blá, blá, blá de hoje em Brasília, falemos dos tempos da São Paulo da garoa, das noites frias, agitadas e elegantes.

É que cruzei a Ipiranga com a São João muito antes de Caetano chegar por aqui, de ouvir Rita Lee, quando a rádio Pan-americana era a emissora dos esportes.

Garotão, frequentava o elegante Restaurante Brahma uma vez por mês, levado por Ernesto Troncon, campeão de vendas na Alto Araraquarense, para quem creditasse direitinho suas comissões. Eram deliciosas as azeitonas pretas do tamanho de bola de ping-pong, e o queijo gorgonzola, italiano, sabendo que as varejeiras eram para ele.

Os frequentadores do Jeca, na esquina oposta, eram, isso sim, chiques. Seus lanches eram disputados na madrugada, até as 5 da manhã, quando os fregueses iam para a calçada, para que os empregados fizessem a limpeza e o cardápio era trocado pelo fortalecido café da manhã. Os boêmios iam descansar…

Os lanches rápidos, eram por conta da Salada Paulista, ao lado esquerdo do Cine Ipiranga. Um longo balcão em forma de ferradura. Salsicha com salada de batata e refrigerante. Os garçons anotavam o pedido no mármore branco do balcão, apagando após o pagamento. De quando em quando, limpavam o local com álcool.

Mulheres e homens elegantemente vestidos desfilavam pela passarela formada pela Barão de Itapetininga, Ipiranga, São João e Dom José de barros, onde o Pinheiros mantinha sua sede na cidade.

Quando o grande zagueiro Mauro Ramos de Oliveira passava, vestindo Minelli, o alfaiate dos poderosos, as mulher suspiravam – algumas assobiavam. Sem a mesma elegância, Canhoteiro, ponta do São Paulo, e Idário, do Corinthians, seu implacável marcador nos campos, detonavam chopps e baurus no subsolo do Ponto Chic, no Largo do Paissandú.

Quase na esquina, na São João, tinha o 518, ponto de encontro dos artistas circenses nas segundas-feiras à tarde/noite. Ali aprendi com um garçom gente boa, nunca pedir o sanduíche “no capricho”. O cozinheiro podia estar de mau humor e sapecar belas cusparadas antes de jogar o presunto na chapa quente.

Caetano talvez não tenha experimentado a sopa do Gouveia, disputadíssima depois das 3 da madrugada, revigorante, verdadeira “levanta defunto”. Nem o Avenida Danças, com suas bailarinas perfumadas, “brincos iguais ao colar, e a ponta de um torturante…”. E os pés-de-valsa, “agás” e lagartixas, categorias bem definidas. A presença dos lagartixas aumentava nas férias escolares, quando as esposas iam para o litoral com os filhos e os maridos permaneciam trabalhando – afinal, nunca ninguém foi de ferro.

Foi ali ou em algum outro lugar de diversão e sedução, que nasceu um dos sucessos de Ângela Maria: “quem descerrar a cortina, da vida da bailarina, há de ver cheio de horror, que, no fundo do seu peito, guarda ela um sonho desfeito, uma desgraça no amor. Fingindo sempre que gosta, de passar a noite exposta, sem escolher o seu par…”.