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No Ângulo | Futebol é preciso

É triste, mas o brasileiro não liga para a história do futebol. E a tendência é piorar…

27/10/2016

Créditos da imagem: Selmy Yassuda/Dedoc

Muito se comentou sobre o fato de que os jogadores da Seleção Brasileira praticamente ignoraram a morte de Carlos Alberto Torres. Somente Gabriel Jesus fez um post sobre a perda de um dos, senão o maior capitão da história do nosso futebol.

Infelizmente isso não é novidade. Como sempre lembrado por Juca Kfouri, uma vez Robinho disse não conhecer Nilton Santos, por exemplo. Só que isso não é exclusividade de “jogadores com origem humilde que não tiveram boa educação de base”. É disseminado.

Primeiro que, de fato, valoriza-se pouco a história no Brasil. Em qualquer área, falamos e conhecemos pouco sobre o passado, e com o futebol não é diferente. Mas a peculiaridade dessa paixão nacional é que as gerações mais novas, em geral, tendem a querer desqualificar o passado. Pensam que os mais velhos “romantizam tudo”, que “futebol antes era fácil” e têm uma voracidade por “testemunhar a História” que me impressiona. Aliás, não só a juventude, como a própria imprensa, mas apenas no futebol europeu, claro: qualquer classificaçãozinha de País de Gales às quartas de final de Eurocopa rende um emocionado “Estamos vendo a História ser feita!”, enquanto no nosso quintal, a tal da “História” parece só ser evocada para coisas negativas: “o mais fraco São Paulo de todos os tempos”, “pior fase da historia do Botafogo”, “se rebaixado, será a primeira vez na história do Internacional”…

Nasci em 1982 e comecei a acompanhar futebol no fim da década de 80. Lembro que era comum que se apelidasse qualquer dupla de um negro e um branco – fossem dois garotos ou dois cachorros, por exemplo – como “Pelé e Garrincha”. Cresci vendo o “Rei” ser tratado como realmente de outro planeta. Garrincha, Didi, Rivellino, Tostão, etc. sendo valorizados como verdadeiros monstros do futebol.

Sinto que tudo mudou após a conquista das Copas de 1994 e 2002. Acabou o encanto daquele período em que dominamos o planeta. É como se Zinhos, Mazinhos e Klebersons nos levando ao topo “humanizassem” o peso de ser “campeão do mundo”.

Para exemplificar isso, durante as Olimpíadas do Rio, o programa “Balada Olímpica” (que ia ao ar na Globo durante as madrugadas) trouxe uma reportagem feita nas Olimpíadas de 1992, pelo Marcos Uchôa, sobre o time americano de basquete, o “Dream Team”. Nela, o repórter exaltava Magic Johnson, e comparava suas assistências “aos lançamentos milimétricos de Gerson”. Isso já 22 anos depois da Copa de 1970.

Alguém imagina hoje uma reportagem dizendo algo como “Djokovic voou para dar o voleio, tal qual Taffarel para evitar um gol”? Eu não.

E isso tem a ver com os referenciais. Naquela época, nosso orgulho eram as Copas, antes restritas ao período 1958-1970. Depois, veio a globalização, ganhamos outras duas (protagonizadas por craques que atuavam no exterior) e surgiu a tal da Bola de Ouro da FIFA, que é tratada quase como uma prova matemática da qualidade de um jogador.

Agora, sejam atletas, sejam jovens torcedores (mesmo de clubes nos quais ele foi ídolo), praticamente ignoram a morte de um colosso do esporte.

E, se bobear, é até melhor assim. Se essa patrulha se intensificar, vão pipocar posts protocolares feitos por assessores dos jogadores. Fora que, às vezes, até algum conhecimento do passado é prejudicial, como quando jovens dizem coisas como “Pelé só tem mais de 1000 gols porque conta até os que fez pelo exército”.

Agora imaginemos só qual é a tendência futura de valorização do passado recente do nosso futebol, em que ninguém cria raízes, que nossos clubes são subjugados pelos mercados árabe e chinês, que a criançada torce para times europeus, a Seleção é um balcão de negócios…

Enfim, o jeito parece ser se resignar. E lamentar.