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No Ângulo | Futebol é preciso

É preciso distinguir isenção de mau humor na Copa do Mundo

19/06/2018

Créditos da imagem: Getty

Em Copas do Mundo, é inevitável que o torcedor e a imprensa, em especial no Brasil, vivam entre o ufanismo eufórico e a crítica pessimista e azeda. Muito disso se deve ao fato de que, para quem não gosta de futebol, o país sofre uma overdose de jogos. Outros acham que isso é alienação política e só serve para maquiar nossos problemas. E existem aqueles que só são chatos mesmo.

A imprensa esportiva tem que se policiar para não ser torcedora, nem a favor nem contra. Para isso, é preciso se preparar para a cobertura. Contar com comentaristas sóbrios e conhecedores. Aprofundar a qualidade na análise técnica, tática e científica do esporte. Mas a maioria não consegue este ponto de equilíbrio. Quem transmite jogos tem que levantar a bola do evento e do time para não espantar a audiência. Os outros tentam fazer o contraponto e acabam, muitas vezes, exagerando nas críticas.

Por isso, ocorre toda essa reação diante do empate do Brasil com a Suíça. Ouvindo os comentários dos “especialistas”, chegaremos à conclusão de que Neymar tem que ser cortado ainda hoje. Mas, com uma vitória no segundo jogo, tudo pode mudar e as críticas virarem elogios. Na época áurea do jornal impresso, dizíamos que no dia seguinte as opiniões emitidas já embrulhavam peixes. Hoje, as infinitas horas de TV, rádio e internet nem para isso servirão.

Não há meio termo entre céu e inferno quando falta planejamento na cobertura. O empate da seleção na estreia frustrou, mas não é um absurdo. Primeiro, porque o time não jogou no seu padrão de eficiência. Ok, há o atenuante de ter sido uma estreia. Depois, a Suíça não é galinha morta. É inferior, mas não é desprezível. E tem ainda o fato de times favoritos serem exaustivamente observados. Antes de pensar em ganhar, a Suíça se preparou para não perder, para segurar o Brasil. O ruim foi que nossos jogadores colaboraram para o sucesso deles.

Imaginem se o jogo terminasse 2 a 0 para o Brasil. E que um dos gols da vitória fosse feito de cabeça por Neymar depois de dar um empurrão no zagueiro adversário. A imprensa, para se mostrar isenta, iria dizer que ganhou roubado etc e tal. Mas o gol irregular dos suíços virou “desculpinha” de quem quer esconder o “fracasso”.

Brasil empatou na estreia com a Suíça. Alemanha perdeu do México. A Espanha não passou do empate contra Portugal -ok, tinha Cristiano Ronaldo, mas os espanhóis são bem superiores aos portugueses. A Argentina empatou com a Islândia. Copa do Mundo é isso aí. Em 1982, a Itália empatou seus três jogos na primeira fase e depois foi campeã detonando Argentina, o favorito Brasil e Alemanha Ocidental. Em 2002, o Brasil ganhou da Turquia com um pênalti inexistente sobre Luisão. Em 1990, a vice-campeão Argentina estreou com derrota para Camarões.

É preciso ter um termômetro regulado para analisar os jogos da Copa. Principalmente a primeira rodada. O mau humor não deve ser a regra. A análise criteriosa e crítica (no sentido de observar e relatar os fatos de forma isenta) deveria ser a melhor postura.

Minha sugestão: torcedor, torça com força e seja consciente do potencial de seu time. Em uma caminhada de muitos passos, o primeiro tropeço talvez não seja um mau presságio. Um dos segredos do sucesso e do equilíbrio é não dar muita importância às vozes dos abutres.