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No Ângulo | Futebol é preciso

E Murphy estava certo… de noooovo!!!!

06/07/2018

Créditos da imagem: Laurence Griffiths/Getty Images

Imagino que todos já ouviram falar da Lei de Murphy*. Não vou contar toda a origem porque não é hora de cultura, mas o conteúdo é bem conhecido: o que pode dar errado vai dar errado. Não é para interpretar literalmente. Significa que devemos sempre nos preparar para duas coisas: 1 – minimizar os erros; 2 – ter um planejamento, ou ao menos autocontrole, para o caso de acontecerem.

Infelizmente, não é a primeira vez que o Brasil esteve com um bom time que se perdeu diante do inesperado. Pra começar, nem deveria ser tão inesperado. Em Copa do Mundo, “shit always happens”. Como em 2010. A seleção fez um primeiro tempo impecável contra a Holanda. Daqueles de dizer “o caneco é nosso” antecipadamente. Mas uma falha do “infalhável” Júlio Cesar gerou o empate e, a seguir, a decomposição completa. Em 2014, antes mesmo do 7 a 1, os brasileiros entraram em parafuso quando o Chile empatou e engrossou a disputa. Todos se lembram das lágrimas de Thiago Silva – que desta vez, ao menos, aguentou firme. Chegou a vez de 2018. Gol contra no começo? Que chato, né? Mas é do jogo! Tem uns 70 minutos ainda. Mantenham a calma e a concentração. Senão logo vem outro erro. E outro, e mais outro…

Por sua vez, após ter desafiado Lei, artigos, incisos e alíneas de Murphy contra o Japão (a começar pelo confronto de reservas belgas e ingleses), o técnico Martinez se endireitou. Na partida desta sexta-feira, mudou a escalação, porque num confronto entre equipes com iniciativa é normal que aquela com menos repertório faça isso. O grande acerto foi a coragem de tirar Mertens, que vinha melhor que De Bruyne, sabendo que o segundo poderia se sentir confortável mais próximo da área. Ainda assim, o Brasil começou seguro, ganhando escanteios e quase marcando. Porém, na primeira oportunidade de executar os planos belgas, o talentoso De Bruyne achou o Coalhada Fellaini livre entre Fernandinho e a zaga. É importante que se lembre isso. O gol contra foi fatalidade, mas o lance que o originou não foi.

Atrás no placar, porém com muito jogo pela frente, o Brasil não tinha motivos para se desesperar, ainda mais sabendo que isso deixaria a disputa ao feitio da formação belga. Precisava, pois sim, organizar-se para superar o que dificultava o empate. Mais uma vez, o lado esquerdo ficou encaixotado porque o direito era inexistente. Willian, Paulinho e Fagner não assustaram. Mas, no lugar de manter a cabeça no lugar (aquele item 2), a seleção brasileira se deixou tomar pelo nervosismo. A ponto de esquecer o perigo de ir com tudo em escanteio contra os belgas. Se chamaram os japoneses de bobos e ingênuos, “nóis é o quê”? Muito se fala que deviam ter feito falta em Lukaku. O erro foi deixar a locomotiva (que comentaristas desavisados pensam ser um pivozão) livre pra puxar contragolpe. Depois, pra derrubar o centroavante, é duro.

Com a vaca indo pro brejo, Tite tinha que ser cirúrgico no intervalo. Não foi. Douglas Costa deveria ter entrado no lugar de Jesus desde o começo. Paulinho não tinha utilidade. Todo mundo manjou suas poucas jogadas. Inclusive o Barcelona, depois de início empolgante. Quando finalmente entraram Douglas e Renato Augusto (sacado dos titulares por decreto de imprensa e torcedores), até os melhores não sabiam mais o que fazer. Contudo, mesmo com atraso, as mudanças trouxeram parte da lucidez de volta. Saiu um belo gol e houve tempo para mais, com a Bélgica sentindo o drama por ter se acomodado com o adversário entregue. Demos azar (até pelo nervosismo óbvio) e os belgas tiveram sorte. Mas as fortunas poderiam ter sido outras se Tite não passasse tanto tempo de mãos dadas com sua “coerência”. Murphy, seu mala…

Observações:

  • nem considero ter sido uma vitória “gigante” ou com “V maiúsculo”, mas imagino que agora vão mesmo parar com o uso de aspas na ótima geração belga, né?

  • a ausência de Casemiro foi, infelizmente, muito mais fatal do que o imaginado. O gol contra pode até ter iniciado o nervosismo, mas um volante do Manchester City tinha a obrigação de se controlar, em vez de errar mais ainda. Fica, inclusive, um recado a seu treinador. Talvez o clube azul tivesse ido mais longe se tivesse um jogador de nível realmente próximo ao do madridista.

  • na minha forma de ver futebol, sem confundi-lo com literatura medieval, é cada vez mais descompensado esperar que protagonistas solucionem tudo na medida em que o torneio se afunila. Neymar e Coutinho passaram 45 minutos marcados pelos belgas e pelo próprio time. Normal que, com desvantagem de dois gols e uma modificação inicial de reduzido efeito, tenham começado a errar acima do normal. Mesmo assim, um passe de Coutinho criou o gol e Neymar criou chances (incluindo a que Coutinho isolou). Será uma grande estupidez se fizerem caça às bruxas com eles.

  • no mais, também não considero cabível jogar tudo pelo alto. Nem mesmo demitir Tite. Mas é essencial que se pare com essa adoração religiosa por tudo o que o técnico faz, como se fosse sacrilégio questioná-lo. Hoje sua coerência obsessiva custou minutos preciosos.

  • Brasil não bate um europeu em mata-mata, na Copa do Mundo, desde 2002. É pra pensar ou não?

*a propósito – Edward Murphy era um “simples engenheiro aeroespacial”…