
Créditos da imagem: Pedro Martins / MoWA Press
Majestoso em Itaquera. Por força do estúpido jogo de torcida única, apenas corintianos no estádio. Eis que a torcida mandante explode em aplausos para um jogador do… São Paulo. Sim, é o que espero quando Diego Souza entrar em campo. Se o então vascaíno tivesse marcado o gol feito nas quartas de final da Libertadores-2012, com certeza teria sido mais uma edição de fim melancólico para Tite. Talvez por isso o tenha convocado para a seleção. Não é ingrato com quem o levou ao topo. Melhor ainda se tivesse ido adiante a especulação de Fernando Torres no Palmeiras. Os visitantes rivais nunca seriam tão bem tratados.
“Oh, mas como ousas não acreditar no polivalente e bom de grupo Diego Souza?” Well, vamos devagar… Ainda que dê certo, não será por nenhum destes dois argumentos plantados. A história de liderança positiva deve ser dura de engolir até pelas mães de hienas. Se Tite falou mesmo isso, foi pra fazer média, porque o comandou em alguns poucos jogos e nunca teria tempo para uma conclusão séria a respeito. Para quem acompanha sua trajetória, ainda que de longe, soa no mínimo inverossímil este rótulo. São várias as notícias de desavenças dele nos clubes em que passou. Não me recordo, sinceramente, de um clube em que tenha saído deixando saudades, salvo eventualmente o Grêmio de 2007 – sim, há dez anos. Quanto à polivalência, trata-se de mais um caso de coringa por força das circunstâncias. Explicando: por não ter se adaptado a nenhuma posição.
Diego Souza tem um repertório técnico interessante. Acima da média, inclusive. Chuta bem com as duas pernas, tem passe curto, passe longo, agressividade com a bola e visão de jogo. Então por que esse jogador de gols bonitos (alguns até antológicos), com 32 anos, ainda é mais esperança que realidade? A resposta está em dois pontos: biotipo e movimentação. Diego Souza é um atleta pesado. Não gordo, mas pesado. Mesmo com 22, já não era fácil se mexer como volante. Para beneficiar a vocação ofensiva, foi transformado em meia-atacante. Nesta posição, seu desempenho dependeu do adversário. Com espaços para progredir, era o craque da rodada. Sem eles, ou se entregava à marcação ou era expulso. Não mudou muita coisa nestes anos, vide um jogo do Sport em que sofreu a falta e reclamou tanto que levou dois amarelos em sequência. No saldo de amor e ódio, normalmente deu o segundo.
A novidade de 2017 foi a “centroavância” (é piada com o grosseiro termo volância, gente), na base do acaso. A tragédia da Chapecoense gerou um inesperado amistoso entre Brasil e Colômbia. Só podendo levar jogadores daqui, Tite resolveu testar uma alternativa mais técnica, capaz de sair da área e abrir espaços. É como deve ser o centroavante em seu esquema, pois um pivozão ou um banheirista é tudo do que Neymar e Paulinho não precisam. Amistoso tem mais espaço. Como disse acima, é maná no deserto para Diego Souza. Foi assim que se ganhou chances efetivas de estar na Rússia, pois só existem outras duas opções com este perfil – Gabriel Jesus e Firmino. No Sport, contudo, seguiu na “meia-atacância” porque o time não quis abrir mão de André. Resultado: mais uma temporada de vai-não-vai, agravada por problemas de ambiente após sua tentativa de ir para o Palmeiras – de onde saiu brigado em 2010.
“Oras, mas se Pratto sair, não é justamente como camisa 9 que ele vai jogar no São Paulo?”. Não sei. Aparentemente, foi pensado para outra posição, pois nem havia um avanço mais forte do River Plate quando começaram as negociações. É bem mais provável que tenha vindo para o lugar de Hernanes, cujo retorno foi pedido pelos chineses em dezembro. O que é um erro pior que escalá-lo como meia-atacante, pois o Profeta muitas vezes estava sendo um volante pela esquerda. Como já apontado, Diego Souza não é volante há uma década. Para o bem dele e do clube, é melhor que isto seja descartado e o reforço finalmente atue como Tite quer. Problema resolvido? Não. Sair da área funciona na Seleção, com finalizadores se infiltrando. O SPFC não tem esses jogadores. Só Marcos Guilherme entrando em diagonal. Muito pouco. Diego teria que ficar mais tempo fixo na área. Menos espaço. Mais fácil de marcar.
Sendo assim, se não quiser jogar mais de dez milhões no lixo outra vez, o São Paulo tem que dar ao contratado o que ele precisa. Isto inclui um atacante de lado com maior repertório dentro da área. Resta saber se há como obter isso com orçamento reduzido e tendo que fazer mais correções num elenco que, se não fosse Hernanes, estaria na segunda divisão. Não adianta nada preencher as necessidades de um jogador e continuar vulnerável no resto. A não ser que queiram assumir o triste estágio atual, glorificar apenas o passado e jogar como time pequeno para não cair. Neste caso, parabéns à diretoria tricolor. Arrumaram o melhor cabeça-de-sardinha do Brasil.