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No Ângulo | Futebol é preciso

“Desculpem-me se falhei” – Rogério Ceni e o ódio no futebol

07/07/2017

Créditos da imagem: UOL

Há um ditado que diz “que bem tão grande te fiz pra que me odeies tanto?”.

O ódio, no futebol, pode vir também por conta de um gol sofrido. E pelo ouvir dizer. Sendo que quem conta um conto aumenta um ponto.

Tive um diretor que não gostava de mim. E, a bem da verdade, meu anjo da guarda também não fazia ponto na mesma nuvem que o dele. E era gostoso saber – a secretária era minha amiga – a força que fazia para engolir os bons textos que eu escrevia. Nas primeiras conversas que tivemos, eu disse a ele que, nos jornais, primeiro lia as notícias de esportes e em seguida as demais. E ouvi, sem seguir seus conselhos, que devia inverter a ordem. Até porque, dava para ver que ele não tinha tempo de chegar às notícias sobre esportes.

Em 1972 ele mandou que eu fosse entrevistar Tostão, internado no Hospital Metodista, em Houston, depois do craque ter dito não à tentativa feita por telefone e ao repórter americano contratado. Indaguei o que devia fazer, caso Tostão se recusasse também a me receber e o chefe disse para que eu mostrasse como a cidade sentia o drama de um jogador tão importante. Qualquer coisa assim como um repórter americano perguntar a paulistas sobre a internação de um jogador de hóquei na Santa Casa. Peguei minha mala e fui.

A vida ensina assim. O chefe não precisa gostar do funcionário, basta respeitá-lo. Vale o inverso, claro. No futebol não é diferente.

Certa vez, um jogador reclamou com Telê o porquê de não ter sido avisado que sairia do time. Telê respondeu que também não o tinha avisado quando o escalou. Por tratar a todos com dignidade e sem baixar a cabeça, foi que ele mandou Macedo tirar as trancinhas; que agradeceu a oportunidade, quando Eduardo José Farah, então presidente da FPF, disse que iria processá-lo; e que pediu ao cartola maior do São Paulo para que deixasse o ônibus, informando que ali só viajavam jogadores e comissão técnica.

Respeito mútuo é bom para todos. Na Copa de 70, no México, Clodoaldo e Fontana pediram o carro emprestado para dar voltas com a namorada, em Guanajuato, e dei a eles a chave. Em 1976, com a Seleção em Seattle, Estados Unidos, um jogador me pediu a chave do quarto para um breve encontro e respondi não. A mesma resposta dei quando dois, em Berlim, 1973, pediram para que alugasse uns filminhos eróticos numa loja perto do hotel onde estavam. Em ambas as oportunidades os pedidos podiam ser considerados de “grande necessidade”, mas eles tinham outra forma de adquiri-los. (rs)

Na profissão, cedo aprendi a buscar a distância exata a manter com os jogadores, técnicos e dirigentes. Longe o suficiente para que não confundissem as coisas, e perto o bastante para que não me negassem as informações. Não é tão difícil, mas parece que muitos não conseguem.

Quando Vicente Matheus, no dia que contratou Rui Rei, chamou a mim e ao Milton José de Oliveira para tomar uma caipirinha no bar do clube, aceitamos. Corri na frente e paguei. Quando Matheus disse ao funcionário para botar na conta, ficou sabendo.

Quando Copeu brigava na Justiça Esportiva para provar que não havia assinado contrato com a Santista, escrevi reportagem provando que o documento era um guardado na gaveta pelo Palmeiras e, de certa forma, a reportagem ajudou a provar a tramoia. Copeu acabou indo para o Santos. Uma tarde, Sílvio Ruiz me contou que o ponta se escondia todas as vezes que me via, com receio de que eu pedisse alguns trocados. Não o culpei. Alguns deveriam agir assim.

Tive colegas que iam para a noite com boleiros. Não dizia nada, por não ser da minha conta, mas não aprovava. Não critico boleiro que curte a noite, toma as suas e beija muito. A vida é dele. Critico se, no campo, não jogar o que deve.

Neymar tem vivido intensamente, pelo que se lê. E, em termos de par, mostra-se competente. Se a intensidade vai acabar encurtando sua carreira, só o tempo dirá. Até lá, cada um que cuide de sua própria vida.

Faz um tempinho, uma colega acusou Rogério Ceni de forjar um convite para jogar na Inglaterra. Minutos depois ele já estava ligando para o programa dizendo que ia processá-la. A colega buscou dizer que apenas estava repetindo o que havia lido em algum lugar, mas Ceni mostrava-se irredutível. Nenhum dos que participavam do programa saiu ao auxílio da colega. E Ceni passou a ser indigesto. Cada vez mais, porque já havia falado duro com outros. Sempre é melhor falar pela frente, na lata, do que por trás. Mas poucos colegas pensam assim. Querem mandar.

Mito para os são-paulinos, com todos os méritos, Rogério Ceni é odiado pelos torcedores dos outros times. Pelos corintianos eu até entendo. Afinal, os são-paulinos não os deixam esquecer o centésimo gol da carreira do goleiro. Mas, por que os outros? Porque gostam das “pessoas humildes”, que dizem “sim senhor”? Estranho.

Em tempo: ontem, em um post que coloquei no Face, um amigo escreveu o que muitos também poderiam ter feito. Disse que odiava Ceni por causa do centésimo gol, que não conseguia esquecer. Pena que não me lembro agora o nome dele, para homenageá-lo.