
Créditos da imagem: extra.globo.com
No começo da corrente semana, foi veiculada uma declaração do treinador do Flamengo, Cristóvão Borges – negro e nordestino -, reclamando e escancarando o racismo que sofre no meio do futebol. Dando uma rápida olhada na minha foto de perfil aqui do site, já se atesta que sou mulato. Filho de pai negro e mãe branca que, mesmo sem ser exatamente um ativista da causa afro, sempre notei o racismo, por questões óbvias e oriundas da minha própria casa, afinal. É o famoso teste do pescoço: vire-o para um lado, depois vire para o outro e pronto. O racismo está aí. E deve ser combatido. E por isso me sinto à vontade de falar sobre.
A sonora de Cristóvão para a ESPN Brasil me pareceu direcionada. Afastando as críticas vinda dos torcedores, o treinador disse se sentir mais cobrado e pressionado do que seus colegas, na imensa maioria, brancos. E cita um episódio em que ouviu ser um “Mourinho do Pelourinho”, evidente referência não só à sua pele, mas também ao seu local de nascimento, a Bahia, porta de entrada dos escravos e o Estado onde há mais negros no país. Algo de dentro do clube, talvez conselheiros, ou mesmo de alguém da imprensa.
Ora, Cristóvão deve sempre reclamar do racismo. O último país do continente a abolir a escravidão, e da forma inescrupulosa que foi, não se livrará desse mal tão cedo. E cabe às vítimas reagirem, colocarem a boca no trombone e denunciarem qualquer tipo de ofensa. Muitos negros se sentem diminuídos porque realmente o são por uma sociedade na qual os brancos majoritariamente lideram desde sempre. É o preconceito latente que assola um país que nasceu da mistura.
No futebol, o esporte de Pelé, a situação requer apenas um mero “teste do pescoço”: treinadores negros? Na primeira divisão? Diretores de futebol negros? Presidentes de clubes negros? Jornalistas que aparecem na televisão negros? Pois bem. Isso não é o racismo direto. Esse fato é apenas um dos frutos da árvore racista. E negá-lo é tão prejudicial como se alimentar dele.
Ou seja, louvável a atitude de Cristóvão. Que seja assim sempre, e que não seja o único.
Mas há de se separar o joio do trigo.
Ney Franco, mineiro, branco, e com mais currículo do que Cristóvão, na sua última passagem pelo Flamengo durou muito pouco. Jorginho, carioca, branco e com sangue rubro-negro, passou poucos dias na Gávea. Mano Menezes, o gaúcho de olhos azuis que abandonou o barco, se pisar no Rio de Janeiro é capaz de sofrer agressões físicas.
A pressão que Cristóvão sofre da torcida (frisa-se: da torcida) NADA tem a ver com sua cor, ou sua origem, ou seu sotaque baiano. Tem a ver um pouco com seu jeito pacato, é verdade, sempre rechaçado pelos eufóricos rubro-negros. Também com sua falta de identificação e passagem pelos rivais. E muito pela maneira que enxerga o jogo, totalmente diferente da torcida.
Desde o começo da sua vida de treinador, que começou após cair de para-quedas no Vasco, Cristóvão é tratado pela imprensa como um técnico com potencial. Desde então, pouco fez para comprovar tal tese, exceto quando continuou a boa campanha do time esculpido por Ricardo Gomes. Nada de se encher os olhos. Ou seja, decepciona até agora.
Não se sabe ao certo o motivo, mas se vê em boa parte da imprensa especializada uma certa paciência com o bom baiano, que não se tem com outros professores. Talvez por verem em Cristóvão um treinador capaz de ser um grande nome (diferente de torcedores de TODOS os times por onde passou); talvez pelo fino trato, sempre educado e solícito; talvez até por serem complacentes com os atos racistas que Cristóvão fatalmente sofre na vida e na profissão.
Mas é evidente para boa parte dos torcedores do Flamengo que há menos questionamentos ao treinador do que o comum. A torcida, claro, discorda. Basta ver os números de Cristóvão, e bem, a forma como ele lê o jogo, que deve ser algo muito avançado pros reles fanáticos rubro-negros, que não conseguem entender. O amor aos volantes é um exemplo, já visto por vascaínos e tricolores.
Cristóvão já nasceu contestado num país onde ser negro significa ser minoria, não de forma numérica, mas social. Deve – e não só ele – sempre reclamar quando for alvo de racismo, até reduzirmos essa falta de educação (e de caráter) à zero.
O que não se pode é justificar a pressão que sofre da torcida (frisa-se novamente: DA TORCIDA) por sua cor de pele, ou etnia, ou local de nascimento. A cara da torcida do Flamengo é o negro desdentado ou a negra de seios de fora da antiga geral. A torcida do Flamengo é a que venera Lêonidas da Silva, Fio Maravilha, Obina, Andrade, Adílio, Júnior e Adriano. E que não suportou Bressan, Mano Menezes, Alessandro, Adrianinho e Waldir Espinosa. Mas que também adorou Sávio e Doval e detestou Douglas Silva e Lula Pereira.
A verdade é que a pressão e a paixão na Gávea não têm cor. E que os racistas que habitam na torcida do Flamengo, e em todas as outras, sejam banidos e resumidos ao que são: a escória da humanidade.