
Créditos da imagem: Montagem/No Ângulo
Antes que os patrulheiros de plantão – a minoria, ainda bem! – tentem desqualificar a minha opinião, já adianto que não encaro a ideia que expressarei nas próximas linhas como a salvação do futebol brasileiro. Sei que o buraco é muito mais embaixo. E envolve muitos interesses. De gigantes, inclusive.
No entanto, gosto de pensar (talvez de maneira ingênua), que estou cumprindo o meu papel enquanto analista crítico ao propor iniciativas que visam melhorar o nosso futebol.
Claro, é inegável a importância de investigar, flagrar e evidenciar tudo de mau que acontece, mas não menos importante é tentar demonstrar caminhos e alternativas para que possamos vislumbrar um futuro melhor para o esporte que é um patrimônio nacional, verdadeiramente um símbolo do país. Sob pena de nos tornarmos amargos e descrentes. Comportamento recorrente aliás, principalmente em tempos de crise.
Bom, o noticiário esportivo em 2015 tem sido marcado pela má situação financeira atual dos grandes clubes – a título de exemplo, os gigantes Corinthians, Santos e São Paulo chegaram a atrasar suas folhas de pagamento em algum momento da temporada -, o que me leva a pensar quão absurdo soa um clube nessas condições pensar em fazer alguma contratação de jogador. Algo bizarro, que desafia a lógica. E que não tem como dar certo, já que essa prática irresponsável inviabiliza o futebol.
Atualmente, estamos testemunhando mais um caso emblemático deste tipo de (má) gestão financeira: será que é viável o Fluminense gastar cerca de dois milhões de reais apenas com dois atletas – Ronaldinho Gaúcho e Fred? Menos mal que o primeiro acaba de pedir a rescisão contratual e está fora do clube! No entanto, o versátil (mas caríssimo) Cícero retornou de empréstimo do Oriente Médio e virou mais um problema a ser administrado! Assim, é óbvio que a corda vai estourar. Não há quem aguente, pelo menos não no futebol brasileiro em seu estágio atual.
Refletindo sobre o assunto, concluí que a CRIATIVIDADE será fundamental para que os nossos clubes passem a ter uma administração mais sustentável. E lembrei de um fato ocorrido no já distante ano de 1998, quando Santos e Flamengo fizeram uma troca de atletas que acabou sendo muito feliz para ambos. Caio (à época sem o “Ribeiro”) e Marcos Assunção, então jogadores do Santos, foram para a equipe carioca em troca de Athirson e Lúcio (que um dia Pelé chamou de estrela mais brilhante da constelação do Goiás, clube que o revelou, e que passaria a ser conhecido como “Lúcio Bala”). E os quatro se saíram muito bem. A negociação acabou se mostrando benéfica a todos os envolvidos. Sabe aquele papo de que um negócio só é bom quando é bom para todos? Pois é, foi assim no caso em questão.
Nunca entendi a razão desse tipo de negociação – envolvendo a troca pura e simples de jogadores – não ser mais frequente. Será pela rivalidade? Pelo temor de oferecer um negócio e este não ser aceito? Medo de depreciar os próprios atletas? Ou seria pela (falta de) confiança dos nossos dirigentes uns nos outros? É muito amadorismo. Faltam gestão e visão. A rivalidade é diferente do fanatismo. Este cega. E emburrece.
Recentemente, Alexandre Pato e Jadson foram os protagonistas de uma surpreendente negociação entre os arquirrivais Corinthians e São Paulo. Em que pese a contratação de Pato pelo Corinthians, pelos valores envolvidos, ter sido uma aberração e a negociação com o São Paulo não poder ser considerada a ideal (afinal, pagar metade do salário de um atleta para que reforce o rival – convenhamos – não é dos melhores negócios), o Corinthians conseguiu diminuir o seu custo mensal e ver o seu atleta ser valorizado pelo adversário. Já o São Paulo, por sua vez, contratou Paulo Henrique Ganso, uma estrela que ao menos em tese viria para ser “o” jogador do meio de campo tricolor, e – sem entrar no mérito se ele “vingou” ou não – a presença de Jadson poderia ser um estorvo para ambos. Além do fato de o hoje maestro corintiano também não ser um atleta barato para figurar entre os reservas. Logo, com boa vontade, conclui-se que o negócio pode ter sido bom para as quatro partes – clubes e atletas.
Por falar em Corinthians e São Paulo, será que os seus respectivos torcedores aprovariam (já pensando na próxima temporada) uma troca simples de Alexandre Pato (vinculado ao clube de Parque São Jorge mas muito identificado com o do Morumbi) por Alan Kardec e Wesley? Será? Penso tratar-se de um negócio potencialmente muito bom.
Na mesma linha, empréstimo de jogadores “encostados”, com o preço do passe fixado, pode ser interessante. Veja o caso de Thiago Ribeiro. Reserva de Robinho no Santos, o agora jogador do Atlético-MG tem sido um dos destaques ofensivos do Galo e poderá, no fim do ano, render um bom dinheiro à equipe “dona” de seus direitos federativos. Ou, ainda, ser reintegrado ao elenco plenamente recuperado e mais confiante. Assim também fez o Palmeiras com Leandro, que tem boas chances de recuperar o seu bom futebol agora no Santos, para onde foi emprestado até o fim do ano.
Enfim, o céu é o limite para transações como essas. Em muitos casos, não há nada mais moderno do que aprender com o passado: já na década de 1970 ficou para a história o lendário “troca-troca” no futebol carioca, implantando por Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense, que agitou os grandes do Rio e envolvia até mesmo craques de seleção.
Mais criatividade, a mesma rivalidade e menos fanatismo. O futebol agradece.
E segue o jogo.
*Texto atualizado em 29/09/2015