
Créditos da imagem: Mundo Encantado
Guerra civil
A classificação para as oitavas de final da Copa Sulamericana selou a divisão da torcida são-paulina. Esqueçam coxinhas e mortadelas. Entram em campo (ou melhor: no estádio ou no sofá) os apoiadores incondicionais e seus antagonistas, os envergonhados crônicos. Enquanto uns gritam “time de guerreiros”, outros vão para casa ou desligam a TV à beira de lamentar o gol perdido pelo Rosário Central. Efeito das expulsões ridículas de Cueva e Petros, o bufão populista. Mas a maioria não liga pra escalação covarde, pra retranca após o gol e pros chiliquentos avermelhados. Estão devidamente adestrados para achar que o time evoluiu, o importante é classificar, etc… Caio Ribeiro e as mães de hienas fizeram seu trabalho.
Ano passado escrevi sobre a síndrome de Estocolmo da torcida tricolor com a mediocridade que sequestrou o clube. A atração fatal requer apenas um toque celestial. Digo, celeste. Danilo Mironga comentou isso em sua última coluna. O apoiador são-paulino não precisa dos atributos de Tóquio, a musa de Casa de Papel, para ser seduzido. Basta um “bamo, bamo, bamo” de seu ídolo Lugano. É o suficiente para ver sistema defensivo onde só existe retranca. Ou intensidade numa equipe que para de jogar depois que acha um gol. O mesmo não acontece com quem não cai no conto da sereia cisplatina. Vejam este comentário: “Qué carajo hace Aguirre dirigiendo al Sao Paulo??? Tremendo representante debe tener, porque como DT fue un asco en todos lados. Es colgarse del travesaño y salir a empatar todos los partidos. Quién puede querer eso para un equipo grande?”
Quem foi o “herege” que postou isso? Um torcedor do River Plate amigo de um usuário do Fórum O Mais Querido (FOMQ) – pequena aldeia virtual em que os envergonhados ainda podem se reunir sem patrulhamentos. Este torcedor viu a “evolução” do rival San Lorenzo. Desta vez nem o Papa fez milagres. Mas o que o argentino não entendeu é aquilo que a coluna diz há meses – ou anos. O São Paulo não sabe mais ser “equipo grande”. O mesmo destino vai assolando os apoiadores incondicionais. Meus leitores são testemunhas. Ano passado, um comentário indagou “como devemos cobrar”. Isso não se explica! Torcedor de time grande faz naturalmente. Noutro dia o amigo corintiano Jorge reclamou que estavam chiando com meia hora de jogo contra o Independiente. Respondi o que sempre escrevo neste espaço: é o preço da grandeza. O que você escolhe? Mais títulos ou mais “simpatia”?
Seria a cisão tricolor irreversível? Não quero acreditar nisso. Mas o fato é que os apoiadores conseguem ampliar seus territórios mesmo sem conquistas. Para isso, além das redes sociais, contam com a mídia que incentiva o otimismo. Vimos que Juninho Pernambucano acabou saindo da Globo por comentários contra o sensacionalismo de setoristas. Com certeza estava se referindo aos clubes do RJ. Tivesse atuado em SP, conheceria o outro lado da moeda – especialmente se vestisse a camisa branca, preta e vermelha. O adesismo virou oportunidade profissional, como não deixa mentir o setorista da Folha que, hoje, responde pela comunicação do SPFC. Vale também para sites não-oficiais com aspirações oficiais, para garantir favores. Mas nada disso faria efeito se o torcedor usasse um aplicativo que tem em casa muito antes dos smartphones. Sim, o cérebro.
A esperança dos envergonhados é que uma hora o estoque de ídolos campeões vai acabar. Leco gastou seus três cartuchos mais fortes em menos de dois anos. Pode não ser em 2018, nem em 2019, mas em algum momento a sedução entorpecente perderá encantos. Quando cair em si, o apoiador verá que só restou um time que não ganha nada há anos e virou piada com sua pose soberana. É no que, como são-paulino que ainda gasta tempo assistindo e debatendo, quero acreditar. Quando nem isso for crível, restará apenas levar a vergonha a seu grau máximo: desprezo.