Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

Como contratar e demitir seu treinador de futebol

26/07/2018

Créditos da imagem: Globo Esporte

E Jair Ventura foi demitido do Santos.

O que vem depois dessa notícia costuma ser a conversa de sempre: falta de paciência, falta de tempo para o treinador.

Na mesma semana, Levir Culpi foi demitido do Gamba, clube japonês. Na sua conta no Twitter,o veterano treinador destacou que o clube havia contratado o treinador errado. Que Levir não encaixa no elenco e na filosofia de trabalho do clube.

O futebol brasileiro ainda atravessa um momento de instabilidade em diversos segmentos. Instabilidade natural de uma indústria em transformação, onde os players ainda buscam a (distante) profissionalização, assim como profissionais qualificados em diversas esferas, e lutam contra o desequilíbrio financeiro que existe em função da falta de pessoas e governança.

Mas um dos temas que mais gera discussão é a questão dos treinadores. Sempre que um deles é demitido surgem os defensores da causa errada, tentando sempre provar que a demissão foi um erro e que é preciso tempo e paciência. Avaliam a consequência e não a causa. Este é o erro fundamental.

Na grande maioria das vezes o problema está no que foi citado por Levir Culpi nos primeiros parágrafos: a escolha equivocada do treinador. A partir daí a chance de uma demissão “prematura” é enorme.

O ponto central é que a escolha de um treinador deveria ser feita a partir de duas premissas básicas, que devem conversar: cultura esportiva e elenco disponível. E aí já reside boa parte das dificuldades de nossos clubes.

Primeiro que ninguém sabe qual a cultura esportiva do clube, que necessariamente tem que conversar com as expectativas dos torcedores. Se o torcedor espera um time guerreiro e a diretoria forma uma equipe tik-tak, pronto, já há um distanciamento entre campo e arquibancada.

Daí forma um elenco lento e de passes laterais e traz um treinador que atua fechado e explorando contra-ataques. Daí as cornetas roncarão fortes. Não haverá tempo que dê jeito nessa mistura, que tem cara de lambança.

É famosa a história de que o São Paulo não contratou Ronaldo – o Fenômeno, não o Cristiano – porque não encontraram Telê Santana para avaliar o atleta, assim como o sucesso de Tite no Corinthians vem muito pelo fato de o treinador participar diretamente nas escolhas de seus contratados, fato que não chegou a funcionar tão bem na Seleção.

Quando tudo dá errado, a solução é a demissão do treinador e a busca por alguém que seja capaz de extrair o melhor do elenco. Em todas as empresas com gestão ativa e atenta é comum trazer pessoas de alto escalão e demiti-las rapidamente quando se percebe que não estão de acordo com a cultura corporativa. Isto tem custo, financeiro e de reputação para quem trouxe, mas resolve-se o problema.

No futebol a dificuldade é que o custo que fica é o financeiro, porque o dirigente simplesmente busca outro treinador e isso vai agradar o torcedor. Reputação? O que é isso?

Analisando as duas demissões citadas no início deste artigo vemos que ambas estavam corretas. Nenhum dos treinadores se encaixava ao elenco e cultura esportiva. O problema no Santos foi ter perdido a parada da Copa, que daria tempo a um novo treinador, que terá que abastecer com o avião em voo, já que era sabido que não havia liga. Ou como disse Levir, contrataram o treinador errado.

E quem paga a conta é sempre o clube.