
Um jovem candidato a jornalista, seguindo os passos do pai, de quem ouviu ter sido influenciado pelo que eu escrevia no Jornal da Tarde e na Placar, quis saber se é possível editar outro jornal como o JT e outra revista como Placar. Chance zero, respondi. Por falta quase absoluta dos ingredientes necessários – daqueles tempos.
O JT começou em janeiro de 1966 e a Placar em março de 1970.
Faltam cartolas como os de então. Faltam craques em quantidade como os da época. E até liberdade para os repórteres.
Naqueles tempos, os cartolas mais, digamos, ambiciosos, se contentavam com a promoção que, direta ou indiretamente, faziam de seus escritórios, de seus comércios, de suas clínicas. Alguns poucos iam além, visando cadeiras na Câmara Municipal ou Federal.
Era assim nos clubes, nas federações e até na CBF, antes chamada de CBD. Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista, era deputado estadual e aparecia na sede da entidade nos fins de tardes para despachar. Às vezes para esticar as pernas no 11º andar, onde o vi, certa vez, de cueca samba-canção. Jovino, velho porteiro, confidente e linguarudo, certa vez me disse que Falcão ia lá para… Bem, é melhor não contar…
Alfredo Ignácio Trindade, presidente do Corinthians, elegeu-se vereador. Wadi Helu, advogado, foi vereador, deputado e secretário estadual. Vicente Matheus queria, e conseguiu, projeção social. Passava a ideia de que enfiava a mão no bolso, mas não. Disse ter doado ao clube o asfaltamento de uma área junto ao ginásio no valor de 700 mil. Engenheiros calcularam e baixaram para 70 mil. Detalhe: o asfalto usado era sobra de obras que sua empresa fazia.
Hoje os cartolas passam os dias no clube, em salas fechadas onde só se entra com sua autorização. Muitos, direta ou inderetamente, recebem altos salários. Não são todos, mas são muitos. Mesmo quando administram o clube de forma desastrada. Se fossem executivos em empresas particulares, seriam sumariamente demitidos, e até processados. Um desses me processou. Foi um dos prazeres que tive na profissão, pagar 543,20 reais de multa. Pagaria dez.
Faltam craques, até para exportar para o mundo classe A do futebol. Só servem para o B e o C, de China. Nos tempos do JT e da Placar, eles ficavam por aqui – nada contra os que saem, ao contrário. Quero mais é que eles façam um belo pé-de-meia. Nos tempos dos craques os repórteres podiam conversar com eles livremente, em qualquer lugar e hora.
Hoje, isso é impossível. Antes é preciso falar com o assistente do assessor do assessor (!). Os assessores nos clubes escolhem quem eles querem que seja entrevistado. Pode acontecer do Dudu marcar três gols numa partida, mas o assessor escalar o Ferrugem, que ficou no banco. Também nada contra eles, mesmo quando exageram. Estão ganhando a vida.
Os jogadores são blindados por assessores e empresários. E orientados a adotarem postura politicamente correta. Decoram as respostas e as cantam automaticamente, quase sempre distantes da pergunta feita. Fingem temer os repórteres que, por sua vez, exageram nas críticas, achando que são ouvidos. Não percebem que devem se limitar a analisar o que o jogador faz em campo, e só criticá-lo quando o que fazem fora tem reflexo em suas atuações. Quero mais é que o Neymar coma quantas maravilhosas puder. Que compre jatinhos e iates. E faça muitos gols.
E aí, quando aparece um jogador falando o que pensa, dando respostas diretas, sem bajular ninguém, e sem medo de ser criticado, é um escândalo. Por não pedir a benção, falam que é arrogante. Não percebem que estão diante de alguém que vai fugir das respostas comportadas e repetidas, do beijo na camisa – às vezes mais falso que encarada de pugilistas na hora da pesagem. Têm medo de que ele responda às críticas no mesmo tom – o que é saudável para uma convivência verdadeira.
Seja bem-vindo, Felipe Melo. E jogue bola para não merecer críticas. E que as façam quando assim não acontecer. Abaixo as bajulações e a mesmice!