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No Ângulo | Futebol é preciso

Até onde é justo a imprensa estigmatizar um profissional?

27/09/2016

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Nos últimos dias tivemos duas polêmicas envolvendo profissionais do futebol que se sentiram “perseguidos” por parte da imprensa.

O primeiro caso foi quando o volante Felipe Melo ameaçou processar o canal Esporte Interativo. Depois, veio a troca de farpas entre o técnico palmeirense, Cuca, e Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, por causa do termo “Cucabol”.

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Twitter / Esporte Interativo

O ex-volante da Seleção Brasileira, atualmente na Inter de Milão, foi alvo de mais uma brincadeira do Esporte Interativo nas mídias sociais, que exibia uma dura falta do jogador no Brasil x Holanda que culminou na traumática eliminação canarinho na Copa de 2010 (na qual Felipe Melo foi expulso), acompanhada da legenda “O bonzinho Felipe Melo está passando pela sua timeline”. Não foi a primeira ironia feita com o atleta pelas mídias sociais do canal.

Posteriormente, o volante desabafou e reclamou do canal, disse que “toda semana tem uma sacanagem, uma montagem para me atingir”, e finalizou com uma frase com a qual concordo totalmente: “Futebol no Brasil está virando humorismo. É piadinha na TV, na internet. Poucos falam com a seriedade que o esporte merece”.

Twitter / Felipe Melo
Twitter / Felipe Melo

Por fim, o jogador chegou a ameaçar processar o canal, mas tudo acabou bem: o Esporte Interativo pediu desculpas e disse não ter o “objetivo de perseguir ninguém”. O atleta aceitou, e imagino que agora a equipe de mídias sociais do canal pensará duas vezes antes de fazer novas piadas usando a fama de violento ou desequilibrado do ótimo volante.

Já vi algumas entrevistas de pessoas que estavam na delegação brasileira na Copa de 2010, e todas destacaram que a eliminação foi muito doída, que o grupo todo chorava copiosamente nos vestiários, e que foi um choque para um grupo que realmente acreditava que seria campeão do mundo. O goleiro Júlio César – pela falha no primeiro gol holandês – e, principalmente, Felipe Melo – pela tola expulsão que já era temida e prevista por muitos críticos – foram os jogadores mais responsabilizados pela derrota.

Alguém tem ideia de como é para o Felipe Melo ver seguidas piadinhas – feitas não por torcedores ou “anônimos”, mas sim por uma instituição formadora de opinião – que o estigmatizam e reforçam aquela que deve ser a maior frustração profissional, ou até mesmo pessoal, de toda sua vida?

Já o caso de Cuca com o ótimo (e excessivamente assertivo) Mauro Cezar Pereira não se baseia em “brincadeirinhas inconsequentes” e envolve um dos meus jornalistas esportivos preferidos. O treinador palmeirense vem sendo constantemente criticado pelo jornalista da ESPN Brasil pelo conjunto palestrino investir muito em ligações diretas, bolas aéreas e laterais cobrados diretamente para a área. O estopim se deu durante a coletiva do técnico após a vitória do Palmeiras sobre o Coritiba pela 27ª rodada do Brasileirão, quando reclamou publicamente do termo “Cucabol” e foi respondido em seguida por Mauro Cezar, conforme o vídeo a seguir:

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=FJBrHvayfDs&w=590&]

 

No final, conversaram ao telefone e felizmente se acertaram.

Eu concordo com a visão do Mauro Cezar Pereira e a cobrança por um jogo mais elaborado. Mas, ao mesmo tempo, entendo que Cuca se sinta pessoalmente atingido pela forma que a crítica é feita. Afinal, o técnico que vem liderando o Brasileirão (o que não deve servir para abonar um trabalho sem maiores complexidades) não é o responsável por elevar o nível de jogo do nosso futebol. Na prática, assumiu um clube que investe muito e por isso está pressionado por grandes conquistas, após uma decepcionante eliminação na Libertadores ainda na fase de grupos e sem direito sequer a pré-temporada. Claro que são argumentos que podem ser rebatidos, afinal, Zé Ricardo, técnico do Flamengo, tampouco pôde fazer pré-temporada e sua equipe vem praticando um futebol mais elaborado. Mas Cuca e o Palmeiras também são muito mais cobrados pela conquista, e cada elenco e treinador encontra a sua maneira de ser bem sucedido. Eu exigiria mais do desempenho do Palmeiras de Cuca na temporada que vem.

De todo modo, ainda que continue sempre nesse padrão, não acho que merece ter seu nome associado pejorativamente a um estilo de jogo. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e a torcida e a diretoria palmeirense que tratem de avaliar Cuca. Os trabalhos têm diferentes fases, existe a maturação de um elenco, a pressão oscila e afeta o desempenho, às vezes um único jogador é capaz de mudar toda uma equipe… enfim, tenho certeza que em outro estágio, no qual outras coisas não pesem mais, Cuca será punido se seguir investindo em um futebol “pobre”.

Eu já usei o termo “Muricybol” no passado, e hoje me arrependo. Estigmas são amarras muito pesadas, que condicionam o comportamento e a percepção. Como eu disse, já reproduzi, e após reflexão, para mim parece uma espécie de chantagem, algo como “se quiser continuar trabalhando como está, continue, mas será tachado negativamente, mesmo que bem sucedido”.

Lembro que o próprio Cuca já armou equipes muito vistosas e ofensivas. O próprio Atlético Mineiro que comandou em 2012/2013, que muitos (como Mauro Cezar) chamam de “Galo Doido” e dizem que se baseava em ligações diretas para o pivô do centroavante Jô, teve muitos momentos de brilho e bom futebol. Há meros dois anos, Tite tinha fama de retranqueiro; até três anos e meio atrás, Cuca “era” azarado. Robinho – que hoje comanda o Galo e é talvez o melhor jogador do Brasileirão – até pouco tempo vinha sendo tratado como “ex-jogador em atividade”, “descompromissado” e “chinelinho”. É importante ter cuidado para não cristalizar preconceitos.

No futebol, a evolução do trabalho não é matemática. Não existe só uma forma de se jogar, nem de vencer. E essa é a maior riqueza do nosso esporte.

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