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No último artigo, abordei o calendário brasileiro atual, argumentei a respeito de alguns aspectos usualmente tratados como dogmas e apresentei uma sugestão que, modéstia à parte, considero melhor do que todas as outras que tenho visto em jornais, programas de TV, sites e afins.
Agora é a vez de tratar de outro ingrediente tão importante para o calendário nacional quanto as competições disputadas em solo brasileiro: as copas continentais de clubes. A forma como atualmente essas copas são estruturadas contribui fortemente para o congestionamento do calendário e para outros fatores já abordados na coluna anterior.
Dando nomes aos bois, alguns pontos nevrálgicos que só contribuem para a desvalorização da estrutura atual são:
1 – Com 38 clubes que disputam a Taça Libertadores e 47 que participam da Copa Sul-Americana (e descontando os que entram nas duas competições), são ao todo cerca de OITENTA clubes que entram em campo nessas competições. É um gigantismo que traduz claramente uma tentativa, por parte da Conmebol, de tentar imitar a dobradinha Liga dos Campeões-Liga Europa. Nessa tentativa de parecer “gente grande”, porém, a Conmebol se esquece de que a UEFA agrega mais de 50 nações, com pelo menos oito ou dez possuindo clubes de nível técnico suficientemente bom, enquanto aqui somos apenas 10 países (ou 11 se contarmos a bizarra participação de clubes mexicanos na Libertadores), cuja grande maioria conta com clubes de baixíssima expressão e nível técnico! Se na Libertadores já tem sido difícil aparecer times bolivianos, venezuelanos, equatorianos etc. que sejam mais do que meros figurantes, imaginem então o nível dos clubes que esses países classificam para a Copa Sul-Americana!
2 – Com as copas confinadas em um único semestre cada e a possibilidade de alguns times disputarem as duas competições, o modelo atual ocupa um total de 16 datas para a Libertadores e 12 para a Copa Sul-Americana, totalizando 28 datas por ano! Naturalmente, uma diminuição nesse total de datas consumidas pelas copas continentais ajudaria sensivelmente no desafogo dos calendários internos de cada país.
A propósito, lembro que é uma hipótese possível (e em 2015 há grandes chances de acontecer com o River Plate) que o mesmo clube seja campeão da Libertadores e chegue à final da Copa Sul-Americana. Essa hipótese, na estrutura atual, provoca uma superposição das datas do Mundial de Clubes com os jogos finais da Copa Sul-Americana. Essa superposição por sua vez, acaba levando a improvisos de última hora, que todos sabemos serem sempre indesejáveis.
3 – Para os times que, em seus campeonatos nacionais, estiverem longe da disputa pelo título e pela vaga na Libertadores, a disputa pelas posições menos nobres tem hoje um horizonte muito distante (e consequentemente pouco motivador), pois o “prêmio” para essas posições é a participação numa Copa Sul-Americana que começará somente em julho/agosto do ano seguinte e que, se (e somente se) resultar em título, conduzirá à Libertadores de dali a dois anos. Por outro lado, uma estrutura que permita aos times que brigam por posições intermediárias um horizonte mais “palpável” seria automaticamente muito mais atraente.
4 – Por conta das copas de seleções disputadas no meio do ano (Copa do Mundo, Copa América e Copa das Confederações), a Libertadores frequentemente tem longas paradas em pleno mata-mata! Numa etapa em que os clubes deveriam estar plenamente montados e entrosados e inteiramente focados na reta final da principal competição do continente, a estrutura em vigor os obriga a ficar até dois meses sem jogar, inevitavelmente “perdendo o embalo” e até correndo o risco de sofrer desfalques importantes (jogadores vendidos para a Europa) em plena “boca do funil”!
Assim, venho propor uma estrutura que, encolhendo a Libertadores e fortalecendo a Copa Sul-Americana, resolveria todos esses problemas que atravancam o calendário continental e enfraquecem as copas de clubes. Essa estrutura ideal é a seguinte:
NO PRIMEIRO SEMESTRE DE CADA ANO:
a) Pela Taça Libertadores da América:
– 28 clubes disputariam a Primeira Fase (o campeão da Libertadores do ano anterior, o campeão da Sul-Americana do ano anterior e 26 classificados através dos campeonatos nacionais);
– Nessa fase, os clubes seriam divididos em 7 grupos de 4, com jogos em ida e volta dentro de cada grupo (6 datas), classificando-se:
* o campeão e o vice-campeão de cada grupo para as oitavas de finais da Libertadores;
* os cinco melhores terceiros colocados, para as quartas de finais da Sul-Americana;
* os dois piores terceiros colocados, para a quinta fase da Copa Sul-Americana.
b) Pela Copa Sul-Americana:
– 32 clubes disputariam a etapa inicial da competição (todos classificados pelos campeonatos nacionais);
– Os clubes se enfrentariam em quatro fases de confrontos eliminatórios (todos em ida e volta), até restarem somente dois times (8 datas);
– Após o final desses confrontos, se classificariam:
* os dois vencedores da quarta fase, para as oitavas de finais da Libertadores;
* os dois perdedores da quarta fase, para as quartas de finais da Sul-Americana.
NO SEGUNDO SEMESTRE DE CADA ANO:
a) Pela Taça Libertadores:
– Os sete campeões e os sete vice-campeões dos grupos da Primeira Fase, mais os dois vencedores da quarta fase da Copa Sul-Americana (totalizando 16 clubes) disputam oitavas, quartas, semifinais e final (8 datas).
b) Pela Copa Sul-Americana:
– Os dois piores terceiros colocados da Primeira Fase da Taça Libertadores se enfrentam, em ida e volta, pela quinta fase da competição (2 datas);
– Os cinco melhores terceiros colocados da Primeira Fase da Libertadores mais o vencedor da quinta fase e os dois perdedores da quarta fase da Sul-Americana (totalizando 8 clubes) disputam quartas, semifinais e final (6 datas).
Trata-se de uma solução plenamente simples e factível que:
1 – Utiliza somente 16 datas no ano (8 no primeiro semestre e 8 no segundo), o que é muito mais fácil de conciliar com os calendários domésticos de cada país e com o calendário internacional de seleções do que as 28 datas exigidas pela atual estrutura.
2 – Valoriza a Libertadores por deixá-la mais enxuta (e por conseguinte tecnicamente mais forte) e a Sul-Americana, tanto por deixá-la também mais enxuta mais forte, quanto por permitir o acesso à Libertadores NO MESMO ANO (ou seja, o time que terminar em 8º lugar no campeonato nacional terá uma possibilidade mais concreta de chegar à Libertadores do que no formato atual)!
3 – Por utilizar menos datas no segundo semestre, permite que as duas copas terminem em outubro ou início de novembro e não gerem riscos de encavalamento com o Mundial de Clubes.
4 – Com o intervalo entre os semestres acontecendo entre o fim de uma etapa (fase de grupos da Libertadores e “primeiro tempo” da Sul-Americana) e o começo de outra etapa (mata-mata da Libertadores e “segundo tempo” da Sul-Americana), os clubes poderão se planejar para o segundo semestre de uma forma muito melhor e mais racional do que com essa parada acontecendo, por exemplo, entre as quartas e as semifinais, já na “boca do funil”.
5 – Com a Libertadores terminando em outubro ou novembro, o time que for campeão poderá aproveitar o mesmo “embalo” e os mesmos elenco, escalação, desenho tático etc. na disputa do Mundial de Clubes (diferentemente do modelo atual em que o campeão da Libertadores tem que enfrentar vários meses de “esfriamento”, de desfalques e remontagens até chegar o mês de dezembro).
Em suma, é um modelo que ao menos virtualmente parece solucionar todos os problemas da estrutura atual e pode ser tranquilamente conciliado tanto com os calendários nacionais atualmente existentes quanto com o calendário brasileiro que propus na coluna anterior. E para esse modelo poder ser colocado em prática, basta Conmebol e federações nacionais quererem.
