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No Ângulo | Futebol é preciso

Ainda bem que o juiz voltou atrás e prevaleceu a justiça. Que se dane a FIFA!

05/10/2015

Créditos da imagem: Montagem / No Ângulo

Na partida Chapecoense 5 x 1 Palmeiras (!!!) aconteceu um dos fatos mais marcantes do futebol neste ano: o lateral-esquerdo Egídio, do Palmeiras, recebeu cartão vermelho injustamente numa jogada em que tocou apenas a bola. Na confusão em que jogadores reclamavam e a equipe de arbitragem discutia, o atleta chegou a ir para o vestiário. Já com cinco minutos de paralisação, supostamente, o quarto árbitro informou que o carrinho do palmeirense foi na bola, o juiz voltou atrás e Egídio foi chamado novamente para o jogo.

Foi o que bastou para protestos indignados entre imprensa e torcedores porque “a FIFA proíbe o uso de qualquer espécie de auxílio de tecnologia, e é evidente que alguém viu pela TV”. Sim, concordo que alguém viu pela TV, assim como devem ter visto pela televisão o gol que veio a ser corretamente anulado de Gabigol na partida Figueirense x Santos pela Copa do Brasil (o que invalida a tese de que só corrigem para beneficiar os fortes), e a cabeçada de Zidane em Materazzi, que resultou na expulsão do genial francês na final da Copa de 2006. A minha discordância é outra.

Por que agora esse moralismo de acatar o que a FIFA determina como se fosse a verdade suprema, e criticar o árbitro por ter feito o certo? A mesma FIFA que é diariamente avacalhada pelos mesmos jornalistas e torcedores por sua corrupção generalizada e falta de noção ao proibir o uso de tecnologia na arbitragem, e que nada mais é do que uma “CBF mundial”.

Para que fique bem claro, sou respeitador das leis e creio que a falta de respeito às regras é um dos piores problemas do nosso país. Mas a questão principal é que a expulsão injusta do Egídio também viola as leis esportivas, só que ao contrário “do mundo real”, não se pode recorrer e reparar uma decisão incorreta. A partida acaba, o erro (ou injustiça) é assimilado como “parte do jogo” e pronto, o resultado foi deturpado.

Para que foram criadas as 17 Regras do futebol, senão para que houvesse justiça em campo? A arbitragem não é um fim em si mesma, a figura do árbitro existe apenas para que o futebol possa ser licitamente praticado e as condutas não-aceitáveis sejam coibidas. Logo, o que deve ser mínima é a influência DO árbitro no jogo, e não a influência NO árbitro, como a FIFA dá a entender ao não querer que se use tecnologia ou informações externas para evitar injustiças em campo.

Se fosse eu um árbitro e me avisassem com base na TV que tomei uma decisão errada, mas ainda poderia voltar atrás, eu agradeceria demais o meu informante e respeitaria o jogo. Em vez de comprometer uma partida, condenando um time sem culpa a jogar com um homem a menos o pelo resto do jogo, eu ignoraria a tal da “recomendação da FIFA”. Entre respeitar o resultado esportivo, o trabalho de todos os profissionais envolvidos diretamente na disputa e o amor de milhões de torcedores, ou a determinação de cartolas usualmente corruptos e que pensam ser os donos do esporte mais popular do mundo, eu não teria a menor dúvida.

Como exemplo, imaginemos como teria sido melhor se no fatídico Corinthians x Inter do Brasileirão de 2005 o árbitro Márcio Rezende de Freitas, após alguns minutinhos de confusão, tivesse marcado pênalti para o Colorado e Tinga tivesse permanecido em campo, em vez da péssima decisão que tomou. Tenho certeza que, independentemente do que acontecesse, o campeonato teria sido mais comemorado, seria visto como mais justo, os corintianos teriam que aturar menos desmerecimentos ao seu título, e o lado vermelho do Rio Grande do Sul poderia ter conquistado um campeonato que perseguia há décadas.

Toda essa situação me lembra a célebre frase do jurista uruguaio Eduardo Juan Couture: “Teu dever é lutar pelo Direito, mas se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça”.

Mas e a FIFA? A FIFA que se dane!