Créditos da imagem: Correio do Povo
Encantamento de serpentes à parte, o futebol brasileiro não tem que “mudar ou mudar de vez” – como um entorpecido apresentador disse em 2006. Simplesmente porque já estava mudando antes da Copa. Não apenas com a chegada de Tite ao cargo de treinador de sua seleção. Apesar da demora inicial, típica da fase depressiva de negação, a humilhante derrota em 2014 produziu seus efeitos. Apenas tem que produzir mais, sem se contentar em tirar o atraso. Afinal, os rivais também evoluem.
O progresso mais visível se encontra nos bancos. Quase todos os técnicos medalhões estão em suas casas. Os clubes prestigiam novos treinadores, mesmo com seus naturais equívocos de principiantes. Assim os times se livram, aos poucos, de táticas ultrapassadas. Como o 4-4-2 com três volantes travestido de outros esquemas, que Luxemburgo tentou no Sport. Menos gente acredita, ao menos sem restrições, que “o treinador deve escolher o esquema que se adequa ao elenco”, como desculpa para insistir com formações de museu. No lugar de dois atletas centralizados na frente, proliferam trios ofensivos. No lugar de “atacante não tem que marcar”, os novos jogadores de lado aprendem que defender não é sacrifício, e sim requisito da função. Os camisas 9 também não se limitarão como pivozões. Não é à toa que Muricy preferiu comentar na televisão.
Questão de tempo para mais nomes se firmarem. Tempo e oportunidade. Neste ponto, uma correção se faz necessária. Por um erro de avaliação e economia, um excesso de jogadores da América do Sul passou a atuar no Brasil. Erro de avaliação porque se julgou serem mais evoluídos taticamente. Na verdade, só estão adaptados a um pragmatismo que vem matando o futebol doméstico de seus países. Vide a Colômbia precisando trocar a ofensividade por defesa, ante a ausência de seu camisa 10. Desatento, em 2017 o São Paulo contratou o “melhor meia” de seu campeonato, o horroroso argentino Gomez. Já tinha quebrado a cara com o também argentino Centurión. Enquanto isso, jovens bem formados (sem os mimos de outras gerações) aceitam a primeira proposta do exterior ao serem preteridos por jogadores relativamente baratos, mas ordinários em sua maioria.
Outra posição que precisa de espaço é a que fez falta à seleção de Tite. Os times brasileiros precisam atuar com meio-campistas. Não estou falando do meia “clássico”, quase imóvel e sendo um a menos contra equipes bem montadas. Nem meia-atacante, mais próximo do centroavante que da faixa central. Meio-campista é o que se move desde sua intermediária e não se limita a assistências. Faz rodar a bola para encontrar o melhor momento de estocar o adversário. Como Modric, Kroos, Iniesta, Pogba e Arthur. Isso mesmo. Nós tínhamos esse jogador e Tite abriu mão dele, preferindo um esgotado volante-atacante cuja jogada única só a Sérvia não percebeu. Resta saber se, com a saída do agora ex-gremista, a falta de referência no país trará de volta os dois volantes que destruíram, gradativamente, o festejado toque de bola brasileiro – e o argentino também.
Se mantiver a base e acrescentar o que faltou, as perspectivas brasileiras para o Qatar são melhores que as de 2018 – que já eram relevantes. Contudo, há que se conter o entusiasmo quando se lembra que estamos no… Brasil. Um resultado insatisfatório na Copa América de 2019 pode mudar tudo. Também não se sabe por quanto tempo os dirigentes brasileiros resistirão aos oferecidos treinadores medalhões, sempre prontos a se promover em algum veículo de comunicação. O certo é que, se pararmos, outros continuarão melhorando. Aí, com o perdão da insistência do colunista, não adianta colocar aspas em ótimas gerações dos futuros algozes. O castigo da humildade à brasileira nunca tarda.