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No Ângulo | Futebol é preciso

A Copa que eu lembro – 1986 – Parte 1

29/05/2018

Créditos da imagem: ludopedio

A primeira Copa que vi foi a de 1982. Porém, a que realmente acompanhei, durante todo o ciclo, foi a competição seguinte. Passaram-se mais de trinta anos e evidentemente não tinha noções táticas entre os 7 e os 11 anos. Mas muita coisa ainda está na memória de uma época com muitos craques, hoje lendários. Não só a parte boa, como a bagunça que já marcava o futebol brasileiro e a crise de identidade pós-1982. Os anos 80 foram inesquecíveis e o esporte das multidões não ficou atrás, inclusive com a consagração do melhor jogador pós-Pelé em plena Copa – cena cada vez mais improvável por conta do calendário atual. Copa que, naqueles dias, chamava-se usualmente de Copa do Mundo, sem a ridícula inclusão do nome FIFA.

1 – o caminho brasileiro para a Colômbia

Isso mesmo. Inicialmente a competição seria no país sul-americano. Foi com este endereço que o substituto de Telê Santana veio a ser escolhido. Era Carlos Alberto Parreira, em início de trajetória como treinador, contando com a lembrança de ter integrado comissões técnicas anteriores – incluindo 1970. Sua estreia aconteceu em amistoso contra o Chile. O 3 a 2 não agradou, assim como a excursão pela Europa no mês de junho (já sem Zico, pois só foram convocados os locais). Apesar da invencibilidade e de uma goleada contra Portugal, o futebol pobre não agradava à torcida e ao Zé da Galera (personagem de Jô Soares, também implicante com Telê). Com o vice-campeonato na Copa América (disputada em jogos de ida e volta), a CBF decidiu que ainda não era a hora de Parreira. Com Telê auto-exilado no mundo árabe, a procura continuaria.

Em 1984, Edu Antunes (irmão de Zico) comandou a equipe em três jogos e o mais memorável foi a derrota para a Inglaterra no Maracanã, por causa de um golaço do ponta John Barnes. Para o ano seguinte, o das eliminatórias, foi a vez de Evaristo de Macedo treinar uma equipe desfalcada dos principais nomes – então no futebol italiano. Também não passou firmeza e, às vésperas da disputa contra Paraguai e Bolívia (sem altitude), a CBF – comandada por Giulite Coutinho – conseguiu uma breve liberação para a volta de Telê. O mestre usou a base de 1982, mas foi a jovem dupla entre Renato Gaúcho e Casagrande, além de um gol antológico de Zico, que assegurou as vitórias fora de casa. Com um empate contra o Paraguai no Maracanã (gol de Sócrates), a vaga foi garantida e Telê voltou às esfihas. Como a eleição para a presidência da CBF seria em janeiro de 1986, não havia como definir quem treinaria a seleção na Copa – já transferida para o México após grave crise colombiana. Sim, esta era a organização de quem sonhava com o tetra.

Na votação, uma situação esdrúxula: ganhou o vice. Como o empate seria decidido em favor do candidato mais velho, Nabi Abi Chedid inverteu as candidaturas da chapa em favor de Otávio Pinto Guimarães. Nem precisava do estratagema, mas foi assim que começou o ano da Copa. A escolha do técnico parecia pender para Rubens Minelli, mas não foi desta vez – e nem seria vez alguma. Telê Santana, enfim liberado, teria a segunda chance. Mas havia um problema. Ele conhecia muito pouca coisa do futebol brasileiro da época, que já não tinha na geração de 1982 seu carro chefe. Pelo contrário, pois a condição física de muitos estava longe de ser a de quatro anos antes. Zico se recuperava de gravíssima lesão por entrada criminosa de Márcio Nunes. Sócrates se arrastava em campo. Falcão, então no São Paulo, chegou a ser barrado por Cilinho. Só havia um jeito de compensar isso: um longo período de preparação, até para conhecer quem estava convocando.

Foram 29 jogadores na convocação inicial, em fevereiro. Telê ainda guardava vaga para quem estava na Europa. O clube com mais jogadores foi o São Paulo, sensação do segundo semestre de 1985 com seus menudos – um time jovem, rápido e talentoso, com alguns jogadores experientes de alto nível e tendo a melhor dupla de ataque do ano – Careca e o estreante Müller. Também havia ilustres desconhecidos como Elzo, volante do Atlético Mineiro. Naqueles tempos, a seleção era prioridade a ponto de o torcedor nem ligar tanto para desfalques em seu time. Os coletivos entre titulares e reservas tinham mais repercussão que as competições estaduais. Na hora de entrar em campo, derrotas em amistosos contra Alemanha e Hungria, na Europa. De volta ao Brasil, muitas escalações diferentes e desempenhos irregulares até a vitória de 4 a 2 contra a Iugoslávia, com um golaço de Zico – aparentemente recuperado. Chegara a hora mais temida: os cortes. Com direito a drama pessoal.

Leandro foi um grande lateral-direito. Para Telê, o melhor que o Brasil já teve. Só que o jogador tinha momentos depressivos e estava fisicamente sofrendo para se manter na posição. Amargurado e bebendo, demorou para retornar à concentração após folga. Renato Gaúcho ficou a seu lado. Ambos chegaram atrasados e Telê, após dois dias tensos, decidiu não puni-los. Mas, em erro que resultaria em longa inimizade, Renato foi cortado na primeira lista, ao contrário do lateral. Sentindo-se culpado, Leandro faltou ao embarque. Como se já não houvesse problemas, pois Zico havia sentido o joelho dias antes, no amistoso de despedida contra o Chile. Embarcou sem chance de jogar uma partida inteira. Para o lugar do desertor Leandro, foi chamado o obscuro botafoguense Josimar, da Cidade de Deus para o mundo bem antes do filme. E não foi só. Já no México, Cerezo foi outro que perdeu a vez por lesão. Em seu lugar, comenta-se que Telê foi forçado a convocar um gremista, Valdo, que mal conhecia. Tudo para aplacar a fúria gaúcha e as acusações de bairrismo mineiro.

O comentário geral era até óbvio: um título brasileiro seria o triunfo da maior desorganização já vista. E não ficaria tão distante de acontecer.

Continua na parte 2.

PS – eles também ficaram de fora:

Gilmar Rinaldi – vice-campeão olímpico, o então goleiro do SPFC foi preterido por Leão como terceiro goleiro. O veterano se queixaria depois, dizendo que para ser reserva era melhor Telê, seu desafeto (mais um), ter levado alguém mais novo.

Sidney – o “Michael Jackson” dos menudos tricolores fez gol de bicicleta em coletivo, mas um ato de indisciplina o tirou da disputa antes mesmo dos cortes finais.

Marinho – ponta-direita talentoso do Bangu, teve seu melhor ano em 1985, mas não encantou Telê na única partida que começou jogando – amistoso contra a Finlândia.

Éder – o canhão de 1982 deu um tapa na cara de um defensor peruano em amistoso, sendo expulso e cortado ainda na fase de treinos. O ponta Edivaldo (então do Atlético e futuramente do São Paulo) tomou seu lugar.

Dirceu – famoso por mandar cartinhas sugerindo a própria convocação, o falso ponta-esquerda caprichou menos na escrita e no futebol.

Bebeto – ainda como promessa, perdeu espaço para a revelação Müller e nem chegou a ser convocado.

Romário – muito bem no seu primeiro ano pelo Vasco da Gama, mas a campanha fraca no Campeonato Carioca atrapalhou sua visibilidade. Só entraria no rol de convocáveis em 1987.

Leia também: 

A Copa que eu lembro – 1986 – Parte 2 (os outros)

A Copa que eu lembro – 1986 – Parte 3 (da superação às lágrimas, em quinhentos minutos)

A Copa que eu lembro – 1986 – Parte 4 (se Deus é brasileiro, deu uma “mano” ao vizinho…)