Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

A Copa das mídias sociais esconde o importante e promove o irrelevante

25/06/2018

Créditos da imagem: Rodrigo Paiva/Getty Images for amfAR

Acompanhando os programas intermináveis de comentários sobre futebol, na noite de domingo (24/6), ouvi duas opiniões totalmente divergentes de jornalistas. Um, em determinado canal, afirmou que a qualidade das coberturas esportivas deu um salto nos últimos 20 anos. Em um concorrente, outro profissional, meu ex-colega de Folha de S.Paulo, disse que há pouco mais de duas décadas a imprensa tinha um apuro maior na escolha de fatos realmente relevantes em grandes eventos como a Copa.

Sem ser saudosista, estou com a segunda opinião. Hoje, por exemplo, os grandes assuntos, fora as partidas do dia, foram a declaração da mulher de Douglas Costa sobre um suposto excesso de ritmo de treinamentos na seleção, o pai de Neymar pedindo que os “parças” de seu filho evitem ataques pelas redes sociais ao Galvão Bueno e outros jornalistas, ou a reação da seleção sueca em defesa do jogador que cometeu a falta infantil que gerou o gol da Alemanha, no último minuto do jogo, e se tornou vítima de acusações racistas nas mídias sociais. Fora os textos do tipo “fulano fez não sei-o-quê e virou meme”.

Antigamente, não tínhamos os espaços generosos que a internet proporciona a repórteres e editores. Nem se conseguia enviar equipes tão numerosas para as Copas. O trabalho de edição era voltado à escolha dos principais assuntos. Não havia espaço para dizer se fulano deu escapada da concentração, se a Bruna Marquezine foi a Sochi e jantou com Neymar e outras coisas do tipo. Quando havia, não passavam de pequenas notinhas.

A declaração da mulher de Douglas Costa, por exemplo, não seria notícia por si só. Poderia até virar uma pauta. Seria considerada um indício para perguntas ao próprio jogador e à Comissão Técnica e elaboração de reportagem ouvindo profissionais renomados da área, como médicos, fisiologistas, preparadores físicos etc. Seria dado um quadro completo com diferentes visões.

Hoje, não se consegue falar com o jogador nem com a comissão. As equipes se fecharam à imprensa e só dão declarações em coletivas com apenas um único jogador ou integrante da comissão técnica. As assessorias de imprensa cuidam para que qualquer possibilidade de polêmica seja devidamente cercada.

Achar hoje que o jornalismo esportivo deu um “grande salto de qualidade” nos últimos 20 anos é de uma presunção nada profissional e algo desrespeitoso em relação às antigas gerações. Sempre existiram na imprensa esportiva os excelentes, os bons, os mais fracos e os que se acham melhores do que tudo que foi feito antes. Esses últimos são os piores.

Há 60 anos, certamente, as condições de trabalho eram precaríssimas e os jornalistas gastavam tempo precioso para resolver como transmitir suas reportagens para as redações. O alto nível tecnológico e científico visto hoje em dia era um sonho distante naquela época. O teste de Cooper, idealizado para a verificação do nível de condicionamento físico, só foi criado em 1968. Carlos Alberto Parreira, preparador físico da seleção de 1970, atribui ao uso desta técnica boa parte da conquista do tricampeonato. Era uma grande novidade.

Hoje, na Copa das Mídias Sociais e das infinitas horas de TV e rádio, o negócio é preencher espaços. É manter as homes sempre atualizadas e ocupar as lacunas enormes dos programas de debates. Nota-se claramente que há muito tempo e espaço para se falar e pouco a se dizer.

Se são protegidos das perguntas dos jornalistas, os jogadores e técnicos têm acesso a todas as baboseiras que são ditas nas mídias sociais. Eles e seus patrocinadores dão muito mais importância à comunicação direta nos facebooks, instagrans, whatsapps etc. Esse tipo de mídia acaba gerando mais desgastes aos envolvidos nas disputas e tira espaço do que é realmente relevante.

No final, o que deveria importar é o bom trabalho de times e da mídia. Se Neymar decidir usar uma peruca ruiva e fizer muitos gols, as perucas esgotarão na loja. Basta ver que, em 2002, o cabelo de Cascão do Fenômeno virou moda entre a molecada. Se ele tivesse fracassado, seria bombardeado. Mas em 2002 não havia as mídias sociais para tornar o secundário e pueril mais importante do que os fatos que realmente influem na competição e nas novidades táticas e científicas que as Copas trazem a cada quatro anos.