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No Ângulo | Futebol é preciso

Neto e a boçalidade autêntica – e milionária

07/06/2018

Créditos da imagem: Portal Comunique-se

Neto quebrou uma televisão ao vivo. Motivo: a entrada de Kazim no Maracanã. Deve ter bombado. O que seria um grande prejuízo pra grande maioria da população, pra ele é dinheiro de Guaraná Poty. Com espaço na TV aberta, na TV paga e no rádio (até blog ele tem, sem saber escrever), é um dos que mais ganham na mídia esportiva. Talvez mais do que como jogador, com a vantagem de que a carreira não é curta. Pelo contrário. Pra quem se estabelece, é quase eterna. Neto dá audiência por “dizer o que pensa”. Se os seus ouvintes falassem o que pensam (?) como ele, ficariam desempregados, divorciados, etc… Ainda assim, são tontos o bastante pra encher os bolsos de uma única pessoa.

Claro que não é pra qualquer um chegar onde Neto chegou. Precisa ter aquele poder nato de falar coisas desagradáveis e soar como “autêntico” em vez de estúpido. Pouquíssimas pessoas têm. Menos ainda são as que faturam com isso. Mas não é só. Precisa de uma união estável e eterna com a ignorância. Cultivá-la mesmo, ainda que seja alvo de chacota. Como quando Neto falou que o volante Fernando parecia ter dois pulmões e, ao ser informado que todo mundo tem (inclusive ele, que andava em campo), replicou dizendo que não é médico pra saber. E não adianta apenas fingir não saber. Se tem uma coisa que ignorante sabe é farejar ignorante e recusar imitações. Por isso Galvão Bueno não assiste futebol europeu, nem pega num livro de geografia e muito menos aprende a pronunciar nomes. Fora a genialidade que só a desinformação propicia, como colocar o Batman no ataque do Real Madrid.

Fico com pena de Chico Lang e Roberto Avallone. São, como diriam os babacas modernos, os polêmicos “raiz”. Considerando o que os atuais ganham, vivem mesmo de raiz. Milton Neves apareceu como convidado num Mesa Redonda de 1997, xingou o anfitrião e fez insinuação homófoba contra outro integrante. Quando percebeu o sucesso da receita, roubou-a e espalhou por aí. Exatamente como a rancorosa Elaine Benes fez com o Soup Nazi naquele episódio de Seinfeld. Claro que não adianta seguir a receita sem os ingredientes. Mas quem os têm na despensa ficou rico com ela. Roberto e Chico não ficaram. Pateticamente, abriram as fronteiras da terra prometida e não conseguiram entrar nela. Não porque Deus ou Charlton Heston (ou ambos) proibiu, mas porque foram atropelados pelos seguidores – que nem menção honrosa fizeram constar nos contracheques.

Não posso negar que Neto é generoso. Trouxe parceiros igualmente ignorantes, mas sem o mesmo talento pra falar besteira e bombar – sim, também não é pra qualquer um. Ao lado deles, também temos jornalistas que deixaram o “diplomismo” de lado. Não por convencimento. Apenas se deram conta que ex-jogadores histriônicos ou engraçadinhos garantem programas no ar. Consequentemente, garantem seus empregos. Na hora de pagar as contas, é o que importa. Como Agostinho Teixeira contorcendo os miolos pra concordar com as asneiras do chefe Datena – que, por sinal, tem diploma. E por que isso acontece? Porque o público prefere. Poderiam prestigiar quem pensa e faz pensar. Mas não querem. Escolhem, orgulhosamente, aquele que opina sobre tudo sem saber de nada. Olham-se no espelho em narcisismo da própria mediocridade.

E poupem-me de culpar a “falta de educação”. No passado o Brasil tinha até mais analfabetos. Nem por isso enriquecia seus toscos populistas. Havia uma saudável vergonha pela ignorância. Uma vontade de ao menos disfarçar. Hoje é motivo de orgulho. E, para os ignorantes mais espertos, lucro. Muito lucro.