Pular para o conteúdo
No Ângulo | Futebol é preciso

Vamos falar o de sempre? Eba!!!!! Só que não…

28/08/2017

Créditos da imagem: Youtube

No início da transmissão do último jogo do Corinthians, a dupla Milton Leite e Maurício Noriega repetiu a tradicional crítica à escassez de gols de fora da área. No decorrer da partida, com o adversário vencendo, os corintianos parecem ter ouvido as recomendações e passaram a bater de tudo quanto é lugar. Alguns arremates foram por cima. Outros bem pelo lado do gol. Já a grande maioria colidiu na defesa adversária e voltou, inclusive expondo o time a contragolpes. Milton Leite observou que era difícil chutar com tantos defensores. Pois é, Pedro Bó…

Mas não pensem que o festejado locutor estava se contrapondo ao que ele mesmo observou no começo. Na próxima partida lá estarão ele e Noriega, em coro, defendendo que a solução contra retrancas é chutar de longe. E, provavelmente, depois vão lamentar os chutes desviados, do mesmo jeito que fizeram no sábado. Este é apenas um dos exemplos de verdades absolutas que os jornalistas esportivos falam, sem perceber que não raro eles mesmos se desmascaram. Não é nem questão de estudo. Bastaria ter a disposição de observar a realidade e conferir se ela bate com o “manuel”. De preferência, sem culpar a própria realidade se não bater.

O que pode espantar é que este congelamento de avaliações permaneceu, se é que não aumentou, justamente quando existem mais programas de debates esportivos. Na teoria, uma excelente oportunidade para trocas de ideias e consequentes avanços no conhecimento. Como exemplo, seria questão de um bloco para o comentarista que fala em dupla de ataque ouvir o outro debatedor esclarecer que o time em questão estava jogando no 4-3-3 (com óbvios três atacantes) e corrigir seu entendimento. Mas, na prática, isso não acontece. E por que não acontece? Porque o que temos não são programas de debates. São painéis, onde cada um chega, expõe o que acha e só presta atenção à opinião alheia para defender a própria até a morte.

É assim que a maioria dos jornalistas, se não dos brasileiros em geral, entende que funciona uma discussão. A começar pelo espectador, que usualmente sintoniza o rádio ou escolhe o canal em que estará o comentarista que fala o que ele, plateia, também acha. Do lado dos debatedores, por sua vez, existe a tendência a levar qualquer assunto a sua zona de conforto. Ocorre até com os melhores, como o comentarista Mauro Cezar Pereira. Volta e meia, seja qual for a pauta, lá está ele achando um jeito de defender o povão nos estádios e, de carona, ofender quem considera torcedor Nutella. E não haverá quem o questione detalhadamente, mesmo porque há outras pautas a comentar. Só dá tempo para cada um fazer o seu sonzinho, eventualmente dar uma lição de moral e trocar de assunto. Poucos gols de fora? Brasileiro quer fazer gol com bola e tudo pra agradar o torcedor Nutella. Próximo tema, por favor.

“Ah, Gus! Mas se eles realmente forem discutir até o fim, logo vão ficar sem assunto e terão que cancelar os programas!”. Engano seu, amigo internauta. Futebol é fascinante porque, entre outras coisas, está em constante mudança. Em questão de semanas, uma certeza plena pode se tornar incógnita. Um jogador faz uma estreia fabulosa, marca quatro gols e, dois meses depois, não acerta um chute ou passe. Um treinador completa uma temporada vitoriosa e é demitido em março do ano seguinte, depois de seis semanas sem vencer. Como estas coisas ocorrem? É o que jornalistas realmente deveriam estar questionando uns aos outros. Preferencialmente, ouvindo o que cada um tem a dizer para, quem sabe, chegarem a uma resposta. Quando chegarem a ela, virão outras perguntas. Assunto não faltará a quem estiver disposto a debater – ainda mais sendo pago para tanto.

Mas é sempre mais cômodo passar o ano todo falando a mesma coisa. Tem que chutar de longe, Nori. E a bola não entra por culpa da avelã. Next…