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No Ângulo | Futebol é preciso

Respeitável público – o futebol amestrado ladeira abaixo

23/05/2018

Créditos da imagem: Djalma Vassão/Gazeta Press

“O CAP é um time de circo. Seu toque de bola fica manjado em quinze ou vinte minutos e a recomposição é lenta”. Para quem acha esta observação oportunista, saibam que foi proferida aos integrantes do site, via Whatsapp, durante o primeiro tempo contra o Grêmio. Sim, dias após eliminarem o SPFC da Copa do Brasil, em jogo elevado às alturas por comentaristas. Mesmo após meses de treinamentos, o time de Fernando Diniz mostrava falhas táticas gritantes. Era questão de perder um ou dois jogos para a queda de confiança fazer o resto. E não, o problema não está na ousadia e na proposta super-avançada. O ponto é que ele não sabe como executar isso. Seja com o elenco atleticano, seja se tivesse em mãos o Barcelona de 2011.

Passados mais de cinco anos do auge do time catalão com seu tiqui-taca, nem todos entenderam que não se resumia a posse de bola. Incluía, em mesmo grau de importância, sua recuperação. Guardiola aplica a “lei dos seis segundos” – pressionar o adversário logo que a bola é perdida, para retomá-la mais próxima do gol e longe da própria meta. É por isso que prefere a troca de passes com vários atletas no campo de ataque. Por mais preciso que seja o time, haverá erros e desarmes do adversário. Jogadores próximos da bola perdida tornam viável fazer esta pressão. Fica a pergunta a quem assistiu aos jogos do Atlético: quando eles fizeram isso? Simplesmente não fizeram. Quem fez – e faz – é o Grêmio. Tampouco os atleticanos montam duas linhas defensivas compactas, como Carille. É a lacuna que tem feito a festa dos adversários.

O futebol moderno de Fernando Diniz é como um livro que começa instigante, mas acaba abruptamente em vinte páginas. Falta o resto. Tem os triângulos, a saída de bola, o alto número de passes e… fim. Mesmo os poucos capítulos têm furos ignorados pela crítica especializada. A elogiada saída de bola dá chances ao adversário jogo após jogo. “Ah, mas é porque os jogadores são fracos!” – é a defesa com reflexo de simpatia e vista grossa a erros de treinamento. Entre estes erros, temos a colocação de jogadores na linha de fundo combinada com passes ao lateral de costas para o ataque. Na terceira jogada o oponente já pega o tempo para interceptar e mandar de primeira para o centroavante. Afinal, adivinhem, tem um atleticano grudado na bandeira de escanteio tirando o impedimento. Ideia interessante, só que mal concebida e mal executada.

Fala-se que Fernando Diniz tem problemas de relacionamento com comandados. Ainda que seja verdade, trata-se de uma tentativa de fuga ao tema – no caso, as inconsistências de seu modernismo. Tal rispidez é invariavelmente lembrada quando os resultados já estão descontentando. Como no rebaixamento do Audax no Campeonato Paulista, um ano após o vice-campeonato. Detalhe: o time começou goleando o SPFC de Rogério Ceni, como fizera com o tricolor de Bauza, em duas partidas desastrosas dos treinadores. Pode-se dizer que a incompetência são-paulina dos últimos anos acabou se tornando “cabo eleitoral” de Diniz. O Paulistão-2016 é uma propaganda permanente do que poderia fazer num clube maior. Mais: fez com que a mídia jogasse aos dirigentes a culpa por não “ousarem” com uma oportunidade a ele. Só se esqueceram de continuar acompanhando.

Outro desvio de tópico é dizer que Diniz deveria tentar coisas mais simples, de acordo com o nível individual de seus times. A assertiva chega a ser ingênua. Não perceberam que a ele interessa continuar com o perfil de gênio incompreendido. Assim, esquiva-se dos fracassos e fica com fama de fiel a seus princípios. Como o chef que só tenta pratos complexos, ocultando a incapacidade de fazer uma omelete. Não surpreende que tenha a admiração declarada de Muricy Ramalho e outros especialistas. Conhecem a história da roupa nova do rei? Pois é. Na fábula, os farsantes diziam que só os inteligentes eram capazes de ver o traje do soberano. Graças ao estratagema, ninguém tinha coragem de dizer que o rei estava nu. Tratando-se de Brasil, nem adiantaria a criança berrando no final. Seria colocada de castigo ou enviada a um abrigo especial. O rei seguiria desfilando as vergonhas por aí.

Mesmo que a ilusão finalmente acabe, haverá quem peça chances a ele num grande clube. Lembrarão que tantos medalhões as têm e que, com o revolucionário quixotesco, ao menos apostarão no novo. Mas aposta deixa de ser aposta quando não tem chance de ser vencida. Enquanto não escrever as páginas que faltam e repensar as existentes, Fernando Diniz pode até ganhar os prêmios da intelectualidade, mas seguirá sendo um charlatão das letras. Ou um dono de circo mambembe com ar de Soleil.

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