
Créditos da imagem: Arte iG
Ninguém sabe ao certo qual é o tamanho da diferença entre o “futebol europeu” (como se todos os times de lá fossem um Real Madrid) e o brasileiro. Como muito bem definiu uma vez José Trajano, hoje, ao mesmo tempo em que a globalização nos permite uma proximidade enorme e cotidiana com os times do Velho Continente, nunca tivemos tão pouco parâmetro da correlação de forças de lá e cá, simplesmente porque eles nunca se enfrentam.
Para quem quer tratar os times de ponta da Europa como praticantes de “outro esporte”, como se fossem os da NBA em comparação ao do nosso basquete, não há muito a dizer. Só posso lembrar que o Real Madrid que goleou a Juventus na última final da Champions League por 4 a 1 é o mesmo que esteve sendo derrotado já no segundo tempo em suas duas últimas partidas pelo Mundial de Clubes: na final de 2016, contra os japoneses do Kashima Antlers,e na semifinal desta edição, contra o Al Jazira dos Emirados Árabes.
Talvez soe como pachequismo, mas qualquer brasileiro que chegue a uma final de Mundial tem o direito e a obrigação de querer e se sentir digno de ser campeão. Nosso país e nosso continente são representantes da mais fantástica e vencedora escola de futebol do planeta. E para quem acha que isso é por causa da Seleção, é bom lembrar que o Brasil é o país com mais Mundiais de Clubes, 10 no total, seguido por Argentina, Itália e Espanha com 9 cada. Mesmo nos mais recentes, os da Fifa, conquistamos 4 e somos superados apenas pela Espanha, com 5. Com a exceção do Santos de 2011 -que foi despreparado para enfrentar aquele que imagino ser o melhor conjunto da história, o Barcelona de Guardiola em seu auge- sempre que um brasileiro teve um estrangeiro pela frente em uma final de Mundial da Fifa, saiu com a taça.
Evidentemente o Real Madrid é claro favorito. Além de ter se firmado ao longo das décadas de fato como o maior clube do mundo, esse conjunto merengue é uma fortaleza. Além de poderosíssimo, o que mais me faz temê-los é o fato de serem “encardidos”. Ao contrário do Barcelona de Guardiola -que foi um time indubitavelmente mais fantástico- este Real parece sempre dar um jeito de vencer. Não importa se com gol de cabeça (uma fortíssima arma do time, aliás) de zagueiro na última jogada da final da Champions de 2013/2014 contra o Atlético de Madri; se nos pênaltis, como na final da Champions 2015/2016; ou ainda na prorrogação, como no Mundial passado, parecem ter uma confiança e uma fome que os tornam quase insuperáveis. Não à toa são os únicos a terem conseguido o feito de serem bicampeões na Era Moderna da Champions League.
Mas este Grêmio não é pouca coisa. Desde a chegada de Renato Gaúcho, foi campeão da Copa do Brasil e da Libertadores de uma maneira muito rara, sem correr riscos e, comumente, passeando contra os adversários. Foi campeão da Libertadores com vitória nas duas partidas, o que é raríssimo. E quem acompanha os jogos da equipe sabe que, como já destaquei aqui, ela tem uma postura realmente digna de “gigante europeu contemporâneo”. Pode ser o melhor conjunto brasileiro desde o São Paulo do Telê. Uma pena realmente a ausência de Arthur!
Para os que fingem que o futebol é uma ciência exata, só posso dizer que vejo muita subjetividade e relatividade. Por exemplo, Casemiro era uma promessa são-paulina que parecia que não ia mais vingar. Acabou se acertando no Real Madrid, como se tivesse apenas demorado para confirmar aquilo que se esperava dele. Já Bruno Cortez apareceu como um ótimo lateral-esquerdo no Botafogo, tanto que gerou a cobiça do São Paulo, que desembolsou milhões de euros por sua contratação. Foi uma decepção e não se firmou mais em lugar nenhum, até encontrar o “levantador de autoestima” Renato Portaluppi no Grêmio. Agora, parece que não importa o quão bem jogue, nunca será visto como aquele que surgiu muito bem, mas sim aquele que não se firmou.
Há quem diga que o desenrolar das semifinais foi ruim para o Grêmio, que passou com dificuldades pelo Pachuca, enquanto o Real levou um susto e entrará com a faca nos dentes para a final. Pode ser. Mas eu vejo de outra maneira: penso que o Grêmio estava sem jogar há duas semanas e foi recuperando o ritmo durante o jogo. Sofreu -o que foi ótimo para o espírito, afinal, não há qualquer possibilidade de que passe pelo Real Madrid sem sofrimento- mas foi de menos a mais, e na prorrogação lembrou o time que encantou na finalíssima da Libertadores. Já os espanhóis foram “humanizados”. O fato de terem corrido riscos reais contra o Al Jazira diminui um pouco a confiança de um time que vem sendo instável, e ainda aumenta a crença dos jogadores do Grêmio de que podem realmente vencer. Se é só uma questão de o Real “jogar à vera”, já deveriam tê-lo feito na semifinal, depois da lição que teriam tomado com o sufoco na final do ano passado.
Prevejo os espanhóis querendo tomar a iniciativa e dando espaço para o Grêmio jogar. E embora a diferença de nível do Real Madrid para o Lanús seja colossal -o que faz soar ridículo este comentário- essa foi a feição da finalíssima da Libertadores, quando o Imortal se saiu muito bem. E se o Real não passeou em suas últimas quatro partidas de Mundial, não vejo por que faria isso agora. Independente do resultado, penso que vai dar jogo, e mais com a cara do Fernandinho do que do Luan.
Enfim, para ganhar, só sendo uma epopeia. Mas o Grêmio é o Grêmio, o mais copeiro clube do país do futebol, um gigante mundial que já foi campeão em cima de São Paulo e Corinthians no Morumbi e do Flamengo no Maracanã. Sonhe e peleie, Grêmio, como só tu sabe fazer!